DABAR 2007
EST - CEBI

GEOGRAFIA  BÍBLICA

prof.Verner Hoefelmann


Geografia é a ciência que descreve a superfície de uma região, seus acidentes físicos, climas, solos e vegetações, assim como as relações das pessoas com esse meio. Ela não explica tudo, mas fornece elementos importantes para que se possa compreender a história, a economia, a organização política, a cultura, enfim, a forma de pensar e viver de um povo.

A Bíblia descreve sua geografia com palavras poéticas e idílicas: “a terra que mana leite e mel” (Ex 3.8; 13.5; 33.3; Lv 20.24; Nm 13.27; 14.8; 16.13,14; Dt  6.3; 11.9; 26.9,15; 26.15; 27.3; 31.20; Js 5.6; Jr 11.5; 32.22; Ez 20.6,15). Quem não conhece a região, pode ser traído por essa expressão. Com algumas poucas exceções, a paisagem é sóbria, com colinas, montanhas pedregosas, vegetação pobre, grandes áreas semi-desérticas ou desérticas. A expressão só adquire sentido para quem procede do grande deserto siro-arábico. Foi a partir dessa perspectiva que os israelitas viram a terra prometida, depois de vagar pelo duro deserto.

O território bíblico é conhecido por diversas expressões: a) Terra de Canaã ou Canaã: A Bíblia emprega esse nome quando a terra era só uma esperança e uma promessa. Por isso ele aparece nada menos que 78 vezes de Gênesis a Juízes (p.ex.: Gn 12.5; 13.12; 37.1; Nm 13.2; Js 17.12; Jz 1.9,27). Depois que os textos bíblicos descreveram a ocupação do território pelos filhos de Israel, esse nome é utilizado só raramente (11 vezes em Sl, Is, Ez, Os, sempre como referência ao passado). O nome deriva de Canaã, quarto filho de Cão e neto de Noé. Etimologicamente significa “habitante de terras baixas”, indicando sua preferência por planícies. São os antecedentes dos fenícios (a Fenícia é conhecida no Novo Testamento como “os lados de Tiro  Sidom”). Por referir-se apenas à região costeira do Mar Mediterrâneo, o nome não combina com o restante do território, muito menos com a Transjordânia, do outro lado do rio Jordão.

b) Terra de Israel: A expressão hebraica ‘erets Israel, utilizada na literatura rabínica e consagrada pelo moderno Estado sionista, não aparece mais que onze vezes na Bíblia (1 Sm 13.19). Após o cisma entre o sul e o norte, designava apenas o reino do norte. A expressão hebraica ‘admat israel, usada dezenove vezes em Ezequiel, designa o solo da terra santa privado de seu povo e da presença divina.

c) Terra de Judá ou Judéia: A princípio, referia-se apenas à area que coube à tribo de Judá. Após a divisão do reino, o termo englobou a território de Benjamim, formando a reino de Judá. Quando o povo voltou do cativeiro babilônico e reorganizou a vida nacional, o nome passou a designar todo o território compreendido na bênção de Jacó (Gn 49.8-12) e seus habitantes passaram a ser chamados de “judeus”.

d) Terra prometida ou terra da promessa: Baseado na promessa feita a Abraão em Gn 12.1-4, esse nome é usado pela tradição judaica, cristã e até muçulmana. A expressão “a terra que Javé jurou dar a vossos pais” aparece 15 vezes em Deuteronômio (1.8; 6.10; 6.23; 28.11; 29.13).

e) Terra Santa: Baseado em Zc 2.12, o nome foi adotado por cristãos da Idade Média (Ex 3.5; 1 Sm 13.19; Zc 2.12).

f) Palestina: O termo não aparece na Bíblia como designação da terra. Fora do ambiente judaico, é hoje a designação mais comum. O nome foi utilizado pelos romanos para designar a província da Judéia após a rebelião judaica liderada por Bar Kochba nos anos de 132 a 135. Generalizou-se no período bizantino, quando foi tomado da linguagem administrativa do Império Romano. Os romanos tomaram a expressão de Heródoto (falecido por volta de 425 a.C.), historiador da Ásia Menor conhecido como “o pai da história”, que chama de Síria-Palestina, ou simplesmente Palestina a região que vai desde a Fenícia até o Egito. Etimologicamente, Palestina provém de palastu ou peleshet, que é o nome que recebe o país dos filisteus em documentos assírios do sétimo século antes de Cristo e na Bíblia.

Como se vê, a Bíblia não conhece um nome fixo para designar o país habitado pelos israelitas. A falta de um nome próprio, preciso e constante mostra que, apesar de ser um país pequeno, ele nunca formou uma unidade homogênea bem definida, nem na geografia física, nem na étnica, nem na política. Com raras exceções, a Palestina conheceu a presença simultânea de populações distintas, condicionadas, por sua vez, por forças políticas distintas. Como não poderia deixar de ser, vamos dedicar a maior parte de nossa exposição ao território que corresponde ao centro dos acontecimentos bíblicos. Mas a geografia bíblica também deve ser descoberta e estudada a partir dos países à sua volta, com quem o povo de Deus compartilha características análogas e dentro dos quais se desenvolveu sua vida. Por isso incluiremos na abordagem a Mesopotâmia e o Egito. À geografia bíblica também pertence, a rigor, o território que circunda a bacia do Mediterrâneo, em especial para o período do Novo Testamento. Mas devido à extensão da matéria, não podemos dar atenção maior a ela.

Além de situar os lugares mencionados na Bíblia, nos propomos nesse texto a estudar a geografia bíblica. As informações que iremos prestar são as que possuem algum interesse para contextualizar e compreender os textos bíblicos. Muitos dados não bíblicos, que de um ponto de vista científico poderiam ter grande importância geográfica, serão omitidos. Junto com detalhes geológicos, topográficos e geográficos, incluiremos também alguns dados históricos do período bíblico (inclusive medievais ou modernos), arqueológicos e até um “guia turístico” da Terra Santa. Em uma palavra: daremos atenção àquilo que possa contribuir para que se tenha um melhor conhecimento do país que serve de cenário para a Bíblia. Observe-se, ao longo do texto, alguns sinais utilizados para orientar o leitor: Palavra sublinhada designa personagens importantes; palavra em negrito: nome de cidade; PALAVRA MAIÚSCULA EM NEGRITO: nome de região; palavra em negrito e sublinhada: nome de povos;  palavra sublinhada em itálico e negrito: rios. O texto apresenta, igualmente, vários links com endereços da internet, que complementam as informações ou as ilustram com imagens.

 

I - FONTES PARA A GEOGRAFIA BÍBLICA

 

Situar geograficamente os lugares mencionados na Bíblia nem sempre é uma tarefa fácil, em especial quando não restaram vestígios claros de sua localização. Por isso a pergunta pelas fontes da geografia bíblica é uma questão importante.

 

1.1 - FONTES ANTIGAS

O mapa mais antigo da região bíblica é um mosaico do ano 600 d.C. Trata-se de uma obra feita para decorar o piso de uma igreja bizantina, na cidade de Madeba, próxima ao monte Nebo, na atual Jordânia. A obra representa a Terra Santa, desde o Líbano até o Egito, incluindo Israel/Palestina, a Transjordânia e o Sinai. Ela detalha montanhas, rios, vales, cidades, ruas e até locais de banho e pesca no rio Nilo. Dos 94 m² do painel original, somente 25 m² estão preservados. Sua importância é enorme para o estudo da arte, história e topografia dos tempos bíblicos. Só a seção relativa à cidade de Jerusalém tem 156 referências a fatos e lugares citados no livro sagrado - por exemplo, a indicação precisa dos locais do Santo Sepulcro e da Via Cardus Maximus. O mosaico foi descoberto acidentalmente em 1897, durante a construção da nova Igreja Ortodoxa Grega de São Jorge sobre as ruínas de um templo bizantino. Atualmente, é uma atração turística internacional (http://www.christusrex.org/www1/ofm/mad/index.html).

Outro mapa muito antigo é o Tabula Peutingeriana. Trata-se de mapa mundial com vias de comunicação, reduzido a uma tira de uns 8 metros de comprimento por 0,33 de lagura, dividida em doze seções. Cobre a Europa, partes da Ásia e o norte da África. O original poderia ser do século III d.C., mas a cópia que chegou até nós é de 1265. Este mapa, que deve seu nome a Konrad Peutinger, se conserva atualmente na Biblioteca Nacional de Viena (http://www.romancoins.info/Tabula-Peutingeriana.html).

As origens do mapa bíblico, no sentido de listas de cidades, se situam no antigo Egito, pois ali se encontram relações de cidades palestinenses escritas sobre fragmentos de cerâmica, sobre tabletes de argila e em muros de construções. Até 1900 a.C. escreveram-se certos nomes de cidades cananéias em cerâmica. Os vasos dos quais provêm a cerâmica, destinados a serem quebrados no curso de uns ritos mágicos de maldição, foram achados por volta de 1930 e recebem o nome de “textos de execração        (http://pt.wikipedia.org/wiki/Textos_de_Execra%C3%A7%C3%A3o). 

No período que segue a 1370 a.C., numerosos príncipes de Canaã escreveram ao faraó egípcio pedindo ajuda para defender suas cidades contra uns saqueadores chamados habiru (‘apiru). Estas cartas, chamadas de el-Amarna e encontradas em fins do século passado, têm grande importância para se conhecer a situação geográfica e política da Palestina no período imediatamente anterior a Moisés e Josué.   (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cartas_de_el-amarna). Os faraós Ramsés II (1290-1224) e Sesonq (ca. 920; Sisaque em 1 Rs 14.25) também deixaram importantes listas geográficas em monumentos do sul do Egito, sobretudo em Luxor.

Vêm em seguida as listas de cidades que nos oferece o próprio AT e o NT. Estas listas e textos representam uma grande contribuição para geografia bíblica. Incluem textos como Js 13-21 (listas de cidades de várias tribos); Gn 10 (lista de povos); 2 Cr 11.6-10 (cidades fortificadas) e os “oráculos contra as nações “ dos Profetas Maiores (p. ex. Is 13-23; Jr 46-52; Ez 25-32). Também os textos do Novo Testamento, em especial os evangelhos, Atos dos Apóstolos e o livro do Apocalipse, fornecem informações importantes para a geografia da Terra Santa e do Império Romano.

Numerosas informações são dadas, além disso, por autores clássicos como Heródoto, Estrabão, Plínio, Josefo e o geógrafo Ptolomeu. A obra mais importante da antiga topografia palestinense é o Onomasticon de Eusébio, do ano de 330 d.C., um amplo estudo geográfico-histórico da Terra Santa. Em A. Neubauer, Géographie du Talmud e em Eretz-Israel Annual, 2 e Atlas se recolhem importantes observações geográficas do judaísmo pós-bíblico. G. Le Strange, R. Dussaud e A. S. Marmardji têm publicado notícias procedentes de geógrafos árabes. São também importantes os dados trazidos por peregrinos e pelos cruzados, especialmente no que se refere a lugares do NT. Uma dessas peregrinas, chamada Etéria, deixou em suas obras muitas informações geográficas e um verdadeiro painel da vida da Igreja na Terra Santo do fim do século IV. O fino senso de observação dessa devota e perspicaz peregrina legou à posteridade um documento valioso que merece ser apreciado por todos os cristãos (confira o livro traduzido por Frei Alberto Beckhauser, A Peregrinação de Etéria. Petrópolis: Vozes, 2005). Desgraçadamente se mostrava aos peregrinos, com muita freqüência, umas localizações que respondiam mais aos itinerários principais que as notícias transmitidas por fontes históricas.

 

1.2 - FONTES MODERNAS

 

A confecção de mapas da Palestina alcançou seu apogeu em meados do século XIX. Em 1838, o clérigo de Boston, E. Robinson, durante uma viagem pela Terra Santa que durou três meses, em companhia do missionário Eli Smith, que falava o árabe, localizou mais lugares palestinenses que os que haviam sido descobertos desde os tempos de Eusébio. O êxito sugeriu a criação do British Palestine Exploration Fund e o seu Survey of Western Palestine com seis volumes.

Este trabalho está na base dos principais mapas atualmente em uso. Os principais são: o Topocadastral Survey, o Westminster Historical Atlas, o mapa da National Geographic, o Geographie de Abel, assim como os mapas de M. Avi-Yonah e de G. Blake.

Uma advertência quanto aos mapas: Todo mapa bíblico leva implícito um juízo acerca da identificação dos lugares, especialmente sobre a relação dos modernos nomes árabes de lugar e os antigos nomes citados na Bíblia. Uma geografia científica da Palestina não pode prescindir de uma constante confrontação com os nomes populares de lugar preservados na língua árabe. Também é preciso ter em conta a dificuldade de transcrever os nomes hebreus e árabes para outras línguas. Via de regra utilizaremos a grafia utilizada pela versão de Almeida da Bíblia.

 

II- GEOGRAFIA DOS PAÍSES CIRCUNVIZINHOS

 

2.1  O CRESCENTE FÉRTIL

 

O território bíblico é parte de um conjunto geográfico que por causa de sua configuração recebeu o nome de “Crescente Fértil” (J.H.Breasted). Trata-se de um arco verde em forma de lua crescente, com cobertura vegetal apreciável e duradoura, cujas pontas estão na Mesopotâmia, no Oriente, e no delta do rio Nilo, no Ocidente (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crescente_F%C3%A9rtil). O corpo do arco passa entre os rios Tigre e Eufrates e nas costas orientais do Mar Mediterrâneo. O Crescente Fértil é irrigado por rios mais ou menos importantes: Tigre, Eufrates (Iraque), Orontes (Síria), Litani (Líbano), Jordão (Palestina) e o delta do Nilo (Egito). A margem externa do crescente é constituída pelos maciços montanhosos do planalto iraniano, da Armênia e do Taurus. A margem interna é formada por regiões semi-desérticas que fazem a transição para o grande deserto Siro-Arábico. A Síria e a Palestina formam a parte mais estreita desse crescente: entre o deserto e o Mediterrâneo, um corredor de menos de cem quilômetros de largura faz a ligação entre a Mesopotâmia e o vale do Nilo.

      Na área do Crescente Fértil ou em suas imediações desenvolveram-se algumas das civilizações mais famosas da antigüidade, como a suméria, a babilônica, a assíria, a persa, a egípcia, a hitita. Comparadas com outras culturas, as civilizações do Crescente Fértil mostraram, muito tempo antes do que em outras partes do mundo, um desenvolvimento singular, pelo fato de ter ocorrido ali alguns fenômenos culturais da máxima importância. Um deles é a revolução neolítica (ca. 7-8 mil anos a.C.). (http://greciantiga.org/his/his03-3a.asp)(http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/humanas/historia/tc2000/hisger1.pdf: aula sobre o período pré-histórico). Ela consistiu na descoberta da técnica da produção de alimentos. Enquanto que o ser humano do período paleolítico vivia da caça e da coleta de produtos, no período neolítico a humanidade tornou-se capaz de produzir sua alimentação, seja através da domesticação de animais e da criação de rebanhos, seja através da “domesticação” das plantas, pelo cultivo de cereais, leguminosas e frutas. Outras inovações vieram complementar a anterior, como a descoberta da cerâmica (6000-4000 a.C.), de suma importância para a vida cotidiana, e dos metais (5000-1000: cobre, bronze, ferro), importantes como instrumentos de trabalho e armas de guerra. Um segundo fenômeno cultural importante ocorrido no Crescente Fértil foi a “revolução urbana” (a partir de 3000 a.C.), que transformou as aldeias em cidades-estado e criou as condições para outras descobertas.

      Demos inicialmente alguma atenção à margem interna do Crescente Fértil, formada pelo DESERTO SIRO-ARÁBICO. Trata-se de um dos maiores desertos do planeta. Abrange a maior parte da península arábica, assim como enormes superfícies dos atuais Estados da Jordânia, da Síria e do Iraque. Seu índice de pluviosidade fica abaixo dos 100 mm. anuais e no verão a temperatura chega a 50 graus à sombra. Na costa do Mar Vermelho, a península arábica tem cadeias de montanhas cuja altura pode chegar a 3.900 metros no Iêmen. A partir dessa cordilheira para o interior do deserto, as terras são geralmente planas e argilosas, às vezes cobertas de pedregal, outras vezes por solos arenosos com dunas.

O deserto não é completamente estéril. Quando a chuva cai em alguns invernos, as águas formam rios temporários (wadis), às vezes de poucas horas, no leito dos quais aparece depois uma vegetação estacional, que é o segredo da vida no deserto. Para ali vão os beduínos com seus rebanhos, cuja subsistência depende ao mesmo tempo do conhecimento de poços, que nunca faltam no deserto e que fornecem a água para as pessoas e animais. Não é raro que em torno de poços se formem oásis com vegetação abundante (http://www.voyagevirtuel.com/jordanie/jordanie-wadi-rum_53.php).

 

2.2  – ABRAÃO E O CRESCENTE FÉRTIL

 

A geografia bíblica não começa na Palestina, e sim, no vale do rio Eufrates,  (http://www.arabias.com.br/cultura/civilizacao.htm), na extremidade oriental do Crescente Fértil. Os mais antigos nomes de lugar identificados na Bíblia são os que guardam relação com Abraão, em Gn 11.31, concretamente, Ur e Harã. A existência de água nesta região determinou o estabelecimento de centros agrícolas ou “sedentários”, condicionando ao mesmo tempo o traçado das rotas comerciais utilizadas para o trânsito entre as grandes zonas exportadoras. Veremos como os movimentos de Abraão coincidem com a mais importante rota de caravanas que unia os dois extremos do Crescente Fértil, a Babilônia e o Egito.

No extremo babilônico da lua crescente se encontrava Ur (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ur), que a Bíblia identifica como o lugar de origem de Abraão (Gn 11.28-31). Alguns investigadores põem em dúvida a exatidão desta notícia. De fato, não se menciona Ur na passagem correspondente da LXX em Gn 11.28,31. Porém, mesmo que Abraão fosse oriundo de Harã, no noroeste do vale, é provável que antes tivesse viajado para Ur, a sudeste, centro cultual máximo para a antiguidade.

Esta região da bacia do rios Tigre e Eufrates, perto do Golfo Pérsico, é chamada de TERRA DE SINEAR em Gn 10.10. Isto significa país dos sumérios, antigos ocupantes não semitas daquela região. Perto de Ur se encontra Uruk, a Ereque de Gn 10.10 (atual Warka), cujo rei Gilgamesh (ca. 2800 a. C.) se converteu em herói de uma lenda sobre o dilúvio. Das escavações nesta localidade procedem os mais antigos testemunhos conhecidos da escrita, o que sugere que este importante avanço cultural pudesse ter-se originado naquela região.

A partir de 2500a.C., os amorreus semitas (‘ocidentais”, por proceder do sul da Arábia ou da Síria, ao noroeste) começaram a invadir o antigo território dos sumérios. A mais antiga das dinastias estabelecidas nesta região teve seu centro em BABILÔNIA, uns 250 km ao noroeste de Ur, onde se construiu um famoso zigurate, um templo em forma de torre, com uma série de plataformas escalonadas de ladrilho (confira Gn 11.4-9: a torre de Babel) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Zigurate). A presença de Abraão em Ur é freqüentemente associada às ondas de imigrantes amorreus que invadem a Suméria. Chegou-se a pensar que Abraão seria contemporâneo de Hamurabi (http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3digo_de_Hamurabi), o mais importante dos monarcas babilônicos (ca. 1700), erroneamente identificado como o Anrafel de Gn 14.1.

Passado um milênio, Babilônia voltaria a ocupar um lugar importante na história israelita, quando Judá foi levado para o cativeiro babilônico (598 e 597 a.C.) (http://www.painsley.org.uk/re/Atlas/babylemp.gif) (http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/humanas/historia/tc2000/hisger4.pdf: aula sobre a Mesopotâmia; excelente site com aulas sobre história: basta alterar o número após hisger para acessar as outras aulas).

 Em virtude de um destes contatos com o país babilônico, Israel se familiarizou com a mitologia suméria da criação, o poema Enuma Elish, do qual se podem tomar algumas imagens de Gn 1-2.  (http://www.klepsidra.net/klepsidra23/gilgamesh.htm).  O jardim do Éden, de Gn 2.10-14, é concebido como um lugar úmido na confluência dos rios Tigre e Eufrates, que aos parentes de Abraão, descalços e empoeirados, recém chegados do deserto arábico, devia parecer um verdadeiro paraíso.

Bem ao leste da região descrita fica a região montanhosa da PÉRSIA , cujo rei, Ciro, seria o libertador dos judeus em 538, ao pôr fim ao cativeiro que estes haviam sofrido na Babilônia (http://www.painsley.org.uk/re/Atlas/persemp.gif). O ambiente cortesão da Pérsia e a religião deste povo, o zoroastrismo, formam parte do cenário dos últimos livros do AT: Neemias, Ester, Daniel.

Em sua viagem para o noroeste desde Ur, Abraão seguiu a rota que se estende entre Mari e Nuzi. Em cada um destes centros, as escavações mais recentes têm dado a conhecer milhares de documentos em tábuas de argila (só em Mari são cerca de vinte mil), que ajudam a explicar muitas das tradições patriarcais de Gênesis. A história de Mari, situada junto ao rio Eufrates, está ligada ao nome de Hammurabi. Perto dos modernos campos petrolíferos de Kirkuk, se encontra Nuzi. Entre esta e Harã se estendia antigamente a região chamada Mitanni. Seus habitantes se chamavam hurritas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Usu%C3%A1rio:Lenicio), que aparecem na Bíblia possivelmente com o nome de  hiveus ou hititas. Seus documentos de negócios, que refletem o comércio que mantinham com mercadores assírios, servem igualmente para ilustrar muitos costumes bíblicos da época patriarcal.

Harã, identificada na Bíblia como o lugar em que Abraão se assentou depois de ter emigrado de Ur (Gn 11.31), é tida por alguns pesquisadores como o lugar de origem do patriarca (http://pt.wikipedia.org/wiki/Har%C3%A3). As cidades desta região levam nomes que são variantes dos que Gn 11 atribui aos parentes do patriarca: Pelegue (v.16), Serugue (v.20), Terá e Naor (v. 24) e mesmo Harã (v.27).

O extremo do arco que forma o Crescente Fértil avança de Harã até o Eufrates, na direção oeste. No lugar em que o rio cruza a atual fronteira turca se encontra Carquemis  (2 Cr 35.20; Jr 46.2), posto avançado do Império hitita até 900 a. C. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hititas). Em 605 a.C. foi cenário da batalha decisiva liderada por Nabucodonosor contra os assírios.

A partir deste ponto, a rota de caravanas dobra bruscamente para o sul, seguindo a linha Alepo-Hama-Damasco-Jerusalém. Alepo era uma antiqüíssima cidade, conhecida já nos documentos de Mari com o nome de Iamhad (http://pt.wikipedia.org/wiki/Alepo). Junto à costa, a oeste de Alepo, estava a cidade-estado de Ugarit, a moderna Ras Shamra. Os arquivos desenterrados aqui a partir de 1929 demonstram que Ugarit era poderosa o bastante para firmar tratados com o Império hitita, rival do Egito e da Síria. A língua em que estão escritos estes textos, o ugarítico, tem grande importância para o estudo do hebraico primitivo. Outra poderosa cidade-estado, mais ao sul e terra adentro, era Hamate (Gn 10.18; Nm 34.8; Js 13.5; Ez 47.16; 2 Sm 8.9-10), atual Hama. Também Hamate foi palco de batalhas decisivas, já que guardava a saída norte do vale formado pelas cadeias montanhosas do Líbano e do Antilíbano. Esta “entrada de Hamate” é considerada, em alguns textos, como o limite norte da terra prometida (Nm 34.8). Ainda mais antiga e importante era Damasco. Como cidade bem abastecida de água e situada à borda do deserto, era a última oportunidade para aprovisionar as caravanas. Surpreende que a Bíblia, ao descrever o itinerário de Abraão (Gn 12.5), não mencione estes centros, dando um salto de Harã para o centro do país cananeu, isto é, até o lugar que logo receberia o nome de Samaria.

CANAÃ, a terra prometida, era um país pequeno, à borda da ponta sudoeste do Crescente Fértil. Mas ocupava uma posição estratégica entre os estados comerciantes rivais: Arábia a sudeste, Egito à sudoeste, os hititas ao norte e Babilônia ao leste. Considerando as linhas de tráfego e a densidade da população, Canaã pode ser considerada o eixo do Crescente Fértil. Certamente foi o eixo de todo o mundo conhecido desde os tempos de Abraão até os de Alexandre Magno.

Os clãs de Abraão, em sua migração desde a Mesopotâmia, não reclamaram como sua, a princípio, a terra de Canaã. Mas Abraão aparece com direito de assentar-se em Canaã devido às experiências que teve em seus mais importantes centros de culto: Siquem, Betel, Hebrom e Berseba. Na realidade, sua estadia na Terra Santa se reduziu a um assentamento nômade na rota que levava ao término natural da viagem: o Egito. Porém a migração que leva seu nome pode muito bem ter-se desenvolvido em ondas sucessivas ao longo de várias gerações. Vistas assim as coisas, pode-se dizer que ela só terminou após a ida de Jacó para unir-se com José no Egito (Gn 46.7). Resulta assim que a última parte da migração designada com o nome de Abraão se integra naquele movimento que as notícias extra-bíblicas designam como invasão dos hicsos. Hicsos é um termo egípcio que significa “monarcas estrangeiros” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hicsos). Alude aos imigrantes asiáticos que se instalaram no nordeste do delta do Nilo, e desde sua capital, Avaris, governaram o Egito entre 1700 e 1570. Alguns investigadores modernos opinam que em realidade não se tratou de uma invasão, e sim de uma horda que se foi infiltrando pacificamente. Em sua maior parte eram semitas, se bem que não falta quem sustente que, ao menos no que se refere à sua casta governante, havia também entre eles elementos hurritas. Os parentes de José, portanto, se instalaram na porção nordeste do delta, no território que a Bíblia designa com o nome de Gósen (Gn 47.6). Ali, na ponta sudoeste do Crescente Fértil, ia-se preparando o cenário do Êxodo.

 

2.3 – MOISÉS: O EGITO E O ITINERÁRIO DO ÊXODO

 

            O “povo de Deus” bíblico, seja quais forem suas origens, parece que chegou a adquirir consciência de sua unidade nacional devido em grande parte à experiência que muitos de seus componentes tiveram no Egito. É neste ponto que muitos pesquisadores modernos põem o começo da história e da geografia bíblica. Considera-se a história de Abraão essencialmente como um relato de como algumas tribos semitas fizeram uma migração com a finalidade de estabelecer-se no Egito. Este país, mais que um “dom do Nilo”, como dizia Heródoto, é o Nilo (http://www.bibleplaces.com/nileriver.htm). Ao longo de suas margens se estende uma faixa de uns 8 km de largura em que se desenvolve um intenso trabalho de cultivo.

            No sul, em direção à primeira catarata, a uns 800 km em linha reta e a uns 1000 km seguindo o curso do rio a partir do delta ( note-se que o rio Nilo flui para o norte), se achava Elefantina (http://pt.wikipedia.org/wiki/Elefantina http://www.ieab.es/elefantina.html), onde se instalou uma colônia judaica no século V a.C.. Os papiros arameus ali descobertos lançam muita luz sobre o período de Esdras e Neemias. Uns 160 km ao norte estava Tebas/Luxor/Karnak (http://es.wikipedia.org/wiki/Luxor http://es.wikipedia.org/wiki/Karnak), com seus magníficos templos, capital do Egito durante a famosa dinastia XVII (1570-1310), cujos reis expulsaram os hicsos e elevaram o Egito à categoria de grande império. A destruição deste império pelos assírios em 663 a.C. encheu de espanto os judeus (Na 3.8= Tebas em hebraico, e não Nô-Amom). Seguindo o curso do Nilo em direção ao norte, a uns 120 km de Tebas, onde o rio descreve uma curva, se acha Chenoboskion (perto de Nag’-Hammadi), onde se encontraram importantes documentos gnósticos coptas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nag_Hammadi). Aproximadamente uns 200 km mais ao norte, o Nilo passa junto a um lugar atualmente chamado de el-Amarna, a antiga Ajetatón, capital do faraó monoteísta Akhenatón=Amenófis IV (1370-1353), de cujos arquivos procedem as cartas de el-Amarna referindo-se aos habirus (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cartas_de_el-amarna). Mais ao norte, na margem oposta do Nilo, se encontrava Oxyrhynchus, onde foram encontrados numerosos papiros da época do NT.

            No vértice do delta, onde o Nilo se divide em diferentes braços, se assentava Mênfis (Mof em Os 9.6; Nof em Is 19.13;Jr 2.16; Ez 30.13), a mais antiga capital do Egito (http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%AAnfis) . Perto dali, na direção norte, se achava Om/Heliópolis, pátria do sogro de José (Gn 41.45). Entre Mênfis e Heliópolis havia um grande cemitério, com suas imortais pirâmides e as esfinges (Cairo surge apenas após a invasão muçulmana, sobre um antigo forte romano chamado Babilônia, perto do local em que a lenda situa o término da viagem da Sagrada Família ao Egito – Mt 2.14). Em tempos de Alexandre Magno , no extremo noroeste do delta, se edificou a grande metrópole e porto marítimo de Alexandria (http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandria http://www.bibleplaces.com/alexandria.htm), onde se instalou uma forte comunidade judaica, que produziu a versão grega de alguns livros hebraicos (a Septuaginta). Apolo, que deu continuidade ao trabalho de Paulo em Corinto, é originário de Alexandria (At 18.24-28). Perto de Alexandria se descobriu, em tempos de Napoleão, a famosa Pedra de Roseta, que serviu para decifrar a linguagem egípcia (1799) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_de_Roseta).

            Para a história do êxodo, datado atualmente no século XIII, interessa sobretudo a porção nordeste do delta. Ramsés II (ca.1290-1224) da dinastia XIX, deixou vários monumentos  no vale do Nilo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rams%C3%A9s_II), sobretudo em Tânis (a Zoã de Is 19.11; Ez 30.14; Sl 78.12). É muito verossímil que esta cidade tivesse ocupado o lugar de Avaris, a antiga capital dos hicsos quatrocentos anos atrás. Nm 13.22 relaciona sua fundação com a de Hebrom e, por conseguinte, com os tempos dos patriarcas. Ramsés II ou seu pai Seti( 1304-1290) reedificou aquele lugar e lhe deu o nome de Ramessés (Ex 1.11). Foi nesta região de Tânis/Ramessés (cf. Gn 47.6,11; Sl 78.12,43) que os descendentes dos patriarcas sofreram a escravidão, obrigados a trabalhar nos projetos monumentais do faraó. A terra de Gósen (Gn 45.10;47.11) se estendia ao sul, abarcando Maskute (provavelmente, a Sucote de Ex 13.20) e Pitom (Ex 1.11). Segundo documentos egípcios, o wadi Tumilat, nesta região, era lugar freqüente de refúgio para os asiáticos que fugiam de fome ou de condições políticas desfavoráveis.

            A debatida questão da  rota do êxodo está intimamente relacionada com a localização do monte Sinai. SINAI E HOREBE não são montes distintos, e sim, nomes de um mesmo lugar que aparecem, respectivamente nas tradições J e E-D do Pentateuco. Há pelo menos quatro possibilidades para localizar esta santa montanha:

1) Ao sul da península do Sinai. O nome mesmo desta península pressupõe como correta a tradição segundo a qual o Gebel Musa (Monte Moisés), em cuja base se assenta o mosteiro de Santa Catarina, é o monte Sinai.

2) Na Arábia (cf. Gl 4.25): A fumaça e o tremor de terra de que se fala em Ex 19.18 sugerem que havia um vulcão em erupção, e o mais próximo é o Talt-Badr, na moderna Arábia, bem a sudeste da península do Sinai. Ptolomeu, o antigo geógrafo, chamava a esta região de Modiane, o que corresponde à Midiã de Ex 3.1. Apesar destes dois fatos independentes em favor de Talat-Badr, parece que a Arábia fica demasiadamente longe do Egito para ser o cenário do êxodo.

3) Na Transjordânia: O nome de Midiã se aplica a uma longa faixa de terra bem ao norte, até Galaade na Transjordânia (cf. Jz 6). Uma possível localização do Sinai seria, nestas paragens, Petra, já que as cores de fogo de suas rochas eram objeto de veneração desde muito tempo. Há, além disso, uma tradição árabe segundo a qual Aarão foi enterrado ali (Nm 20.28). Esta teoria, como a anterior, não conta com defensores na atualidade, porque neste caso o Sinai ficaria demasiadamente a leste.

4) No Negev: esta hipótese situa a teofania do Sinai em Cades-Barnéia. De fato, a água que brota da rocha e as murmurações do povo em Meribá durante a estada em Cades-Barnéia (Nm 20.13) são descritas em termos idênticos à narração do acontecido no Sinai segundo Ex 17.7. O argumento tem convencido apenas a um pequeno número de exegetas.

            Duas são as possíveis rotas do êxodo que merecem uma consideração atenta: a do norte, que corresponde quase sempre à localização do Sinai segundo a teoria 4, e a do sul, de acordo com a localização da teoria 1.

Em primeiro lugar, a teoria da rota norte sugere que os israelitas saíram de Tânis/Zoã diretamente para Cades-Barnéia, cruzando pela região norte da península do Sinai (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Exodo-3.jpg). Este seria o caminho mais curto e natural para ir do Egito à Palestina. Ela fica, sem dúvida, explicitamente excluída por Ex 13.17, embora se possa entender a referência aos filisteus como uma glosa anacrônica ( mesmo que os filisteus pirateassem pela costa palestina já no século XIII, não parece que tivessem tido um controle firme do sul de Canaã antes de 1180-1150, muito tempo depois do êxodo). Se quisermos harmonizar a descrição bíblica dos lugares percorridos durante o êxodo com a teoria da rota norte, temos que identificar o “mar dos Juncos” de Ex 13.18;14.22 (o texto hebraico diz “mar de Juncos”; o “mar Vermelho” de algumas traduções procede da LXX, que tentou identificar essa extensão de água com um lugar conhecido). Poderia ser a parte mais meridional do lago Mensale ou os vaus do lago Sirbone (perto do Mediterrâneo, entre o Egito e Canaã). O Migdol  de Ex 14.2 caía do lado egípcio do mar, e o texto hebraico de Ez 29.10 situa Migdol no extremo nordeste do Egito, muito longe de Assuã.  Cruzando os vaus desde Migdol estava Baal-Zefon (Ex 14.2), que significa “senhor do Norte”. O “norte”, a que faz referência este nome, não é um indício concludente, já que esta designação parece corresponder originariamente a uma elevada montanha da costa norte da Síria, o monte Cassio ou Amano. Um destacamento de soldados fenícios poderia ter levado consigo este nome da sua pátria para o Egito, aplicando-o em sentido irônico às colinas baixas situadas a oeste de Sirbone (ao nordeste do atual canal do Suez), chamada na época Pelusium e atualmente Farama.

            Outras informações bíblicas estariam mais de acordo com a rota sul, o que implicaria um desvio muito ao sul para alcançar o monte Sinai segundo a teoria 1 (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Exodo-3.jpg). (W.F. Albright trata de conciliar ambas as teorias, supondo que o êxodo seguiu uma rota norte, desviando-se logo para o sul; outros pesquisadores sustentam que houve vários êxodos, teoria que também se aplica à solução das discrepâncias cronológicas e arqueológicas que suscitam o êxodo e a conquista da Palestina). Seguindo um desvio para o sul, encontramos, na parte sul-central da Península do Sinai umas inscrições de ca. de 150 d.C. em um dialeto árabe chamado nabateu. Elas testemunham que o vale Mukkatab e o triângulo adjacente, que se estende uns 30 km para o Gebel Serbal e o Gebel Musa, eram objeto de veneração religiosa. O Serbal, 20 km a noroeste do Sinai, é um monte majestoso em forma de serra, que Jerônimo e alguns pesquisadores modernos têm por cenário da teofania sinaítica. Mas não há em suas imediações nenhum lugar apto para acampar, como parece exigir o relato bíblico. Junto ao “Sinai tradicional”, o Gebel Musa (http://www.bibleplaces.com/jebelmusa.htm), há um elevado precipício chamado Safsafa que domina a vasta planície de er-Raha. A proximidade da água e o esplendor de seus arredores têm convencido a maior parte dos exegetas modernos de que esta é a montanha de Ex 19.2. Sem dúvida, a tradição grega relacionada com o mosteiro de Santa Catarina desvia a atenção para o extremo oposto (leste) da cadeia formada pelo Gebel Musa. De qualquer forma, está claro que as provas aduzidas para esta localização não são muito firmes e não podem dar por finalizadas  a investigação sobre o assunto.

            Afirma-se que os israelitas , depois da teofania do Sinai, caminharam sob as ordens de Moisés durante quarenta anos em direção à Transjordânia. A rota do Sinai até Edom está assinalada duas vezes na Bíblia: a primeira, com muitas minúcias, em Nm 33, e a segunda, mais brevemente, em Dt 1. A lista de lugares não nos ajuda muito, pois na maior parte eles nos são desconhecidos. A Parã de Nm 12.16 e Dt 1.1 volta a aparecer como uma importante montanha em Dt 33.2 e Hc 3.3. Está fora de dúvidas que seu nome sobreviveu no do oásis de Feirã, perto do Gebel Serbal, mas a Bíblia supõe uma localização no deserto ao sul do mar Morto, chamado Arabá. A principal discrepância entre ambas as listas de lugares se refere a Eziom-Geber (que 1 Rs 9.26 situa junto a Elate, na margem do mar dos Juncos, no território de Edom) . De Dt 2.8 pode-se depreender que os israelitas chegaram a este porto somente depois de terem partido de Cades-Barnéia em direção à Arabá, que forma o costado ocidental de Edom. Mas Nm 33.36 situa claramente o acampamento em Eziom-Geber antes de Cades-Barnéia e Edom.

            Antes de passarmos a examinar em detalhes  a geografia da Transjordânia, convém mencionar, ainda que brevemente, o problema da continuação do êxodo para o monte Nebo, situado no extremo nordeste do mar Morto, onde Moisés morreu e foi sepultado (Dt 34.5). Havia três possíveis rotas para o norte partindo de Eziom-Geber, junto ao Golfo de Ácaba, em direção às montanhas da Transjordânia, ao leste do Mar Morto

 1) A rota mais ocidental ia diretamente para o norte através da depressão do Arabá, para dobrar ao sul do mar Morto e entrar nas terras altas, passando ao longo do limite entre Edom e Moabe.

2) A rota central e mais cômoda era a que seguia do golfo de Ácaba para a direção nordeste e através do wadi Yetem, desviando-se logo para o norte para alcançar a Estrada Real (Nm 20.17), que avançava ao longo da meseta montanhosa que formava o espinhaço de Edom e Moabe.

3) A rota mais oriental ou caminho do deserto, ao qual se chegava também pelo wadi Yetem, mas dobrando logo para o leste e adentrando no deserto antes de dobrar de novo para o norte rodeando Edom e Moabe pelo leste.

            A passagem pela rota 2, a mais cômoda, foi trancada pelo rei edomita (Nm 20.14-21). Segundo a tradição P, parece que Israel seguiu a rota 1, pois em Nm 33.42 encontramos os israelitas atravessando para o norte pelo Arabá, em direção a Punom, onde parece situar-se o episódio da serpente de bronze (Nm 21.4). Segundo Nm 21.10-13, parece que dobraram logo para o leste, passaram através do vale de Zerede, saindo logo para o deserto depois de seguir a linha divisória entre Edom e Moabe. Sem dúvida, Dt 2.8 indica que Israel não utilizou a rota do Arabá, e sim a rota 3. Está fadado ao fracasso o intento de seguir uma das rotas? Ou será que houve várias rotas seguidas por grupos distintos, analogamente às diferentes rotas do êxodo? Em qualquer caso, o certo é que os israelitas chegaram à terra prometida após  peregrinar  vários séculos,  que os levou de um extremo a outro do Crescente Fértil, para então voltar, em parte, um trecho do caminho percorrido.

 

III – GEOGRAFIA DA PALESTINA

 

            3.1 – CONFIGURAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

 

            A região que vamos descrever agora é uma estreita faixa de terra que mede entre 320 e 380  km de Dã, no norte,  até o limite com península do Sinai, ao sul (de Dã a Cades-Barnéia= 320 km; de Dã a Eilat=380 km). Está incluída nestas dimensões a vasta extensão do deserto do Negev, um território que teve grande importância na história israelita, mas que não pode ser considerado propriamente como pertencente àquela nação. Se ficarmos com a expressão bíblica clássica “de Dã até Berseba”(1 Sm 3.20; 2 Sm 3.20; 17.11; 24.2,15;1 Rs 5.5; Jz 20.1; 1 Cr 21.2; 2 Cr 30.5), a longitude máxima do país israelita seria de apenas 240 km. A largura da costa mediterrânea até a depressão do Jordão varia entre uns 50 km ao norte e uns 80 km na altura do mar Morto. Estritamente falando, os 30 km de meseta montanhosa que se estendem pela Transjordânia, a leste do rio Jordão, não se deveria considerar como território israelita. Israel, por conseguinte, abarcaria uns 23.000 km quadrados, equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A história bíblica desenvolveu-se num cenário muito pequeno. As capitais da monarquia dividida, Samaria ao norte e Jerusalém ao sul, distavam uns 55 km entre si.

            Teremos que ocupar-nos também com o Negev e a Transjordânia junto com o Israel propriamente dito. Esta área mais ampla se presta a uma divisão em quatro faixas quase paralelas no sentido norte-sul (http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/TS/indexEs.html). Enumeradas do leste para o oeste, são elas: 1) As montanhas da Transjordânia; 2) A depressão do vale do rio Jordão; 3) As montanhas da Palestina ou Cisjordânia; 4) A planície costeira do Mediterrâneo (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Relevo-Palestina.jpg ).

Originalmente ambas as cadeias de montanhas (1 e 3) formavam uma só. Separaram-se em conseqüência de um afundamento da crosta terrestre na direção norte-sul. Esta falha tectônica é conhecida como Rift Valley. Ela faz parte de um sistema que afunda a crosta terrestre desde a costa sudeste da África, passando pela região dos grandes lagos (Niassa, Tanganica e Vitória), continua pelo Mar Vermelho e pelo golfo de Ácaba, continua em linha reta pelo norte, atravessando a Palestina, o Líbano e a Síria até penetrar na meseta da Anatólia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_do_Rift).

 Em todo o percurso asiático, o vale formado por essa falha geológica é cercado por cadeias de montanhas: Na Síria, o VALE DE GHAB é ladeado pelas cordilheiras do Anshariyeh (perto da costa mediterrânea) e do Jebel Zawiyeh (voltado para o Grande Deserto. No Líbano, o VALE DE BEQAA é cercado pelas cordilheiras do Líbano (junto ao mar) e do Antilíbano(em direção ao deserto). Ao pé dessas  duas cordilheiras, cujas alturas máximas são 3000 m. acima do nível do mar, nascem os rios que se alimentam das águas e neves das montanhas: o rio Litani, cujas águas descem para o sul para depois dobrar para o oeste e desembocar no Mediterrâneo ao norte de Tiro. O rio Orontes se dirige para o norte, atravessando os vales de Beqaa e Ghab, desembocando no Mediterrâneo perto  da cidade turca de Antioquia. As duas cadeias de montanhas que constituem as faixas 1 e 3, na Transjordânia e na Palestina, são, respectivamente, o prolongamento das montanhas do Antilíbano e do Líbano, na Síria.

Na Palestina, o afundamento da faixa 2 formou a depressão do Jordão (Ghor, em árabe), pela qual fluem agora as águas do rio Jordão, desde as montanhas do Líbano até o mar Morto, no sul.

É possível que algumas montanhas da Palestina tenham tido alguma vez uma atividade vulcânica. A leste da Palestina, o Gebel Druze apresenta algumas mostras vulcânicas em forma de lava ou basalto espalhados sobre Basã e sobre a parte leste do deserto da Transjordânia. Em Callirhoe, junto à margem oriental do Mar Morto, há mananciais térmicos que demonstram a existência de certa atividade ígnea no subsolo. Há provas claras de que na antiguidade houve vários terremotos (Am 1.1). A arqueologia demonstrou que o mosteiro de Qumrã, dos essênios, foi destruído por um terremoto (por volta de 31 a.C.), tendo sido reconstruído durante o governo de Arquelau, no início da era cristã. Também em época recente houve vários terremotos (Safed em 1837; Nazaré em 1900, Jafa em 1903; Jericó em 1927).

 

3.2 – CLIMA

 

O clima varia segundo as características de cada região: a costa, as montanhas, a depressão do Jordão. Fundamentalmente o ano se divide em duas estações: o verão, quente e seco, e o inverno, frio e úmido. A costa da Palestina é quente (de 10 a 15 graus no inverno e de 27 a 32 graus no verão). Nas montanhas, a temperatura é uns 5 graus mais baixa que na costa, com grandes diferenças entre o dia e a noite. No verão, nas montanhas (Jerusalém, por exemplo) as temperaturas são de 30 graus durante o dia e de 18 graus durante a noite. Nas montanhas, o mau tempo não se deve à umidade, como ocorre na costa, e sim, aos fortes ventos: o vento que arrasta as chuvas procede do Mediterrâneo, e o vento abrasador (siroco ou khamsin), vem do deserto nos meses de maio e outubro (Is 27.8; Jr 4.11). Jesus conhecia a ambos (Lc 12.54-55), e durante o inverno passava pelo único pórtico do templo que oferecia uma proteção (Jo 10.22-23). A depressão do Jordão, que está muito abaixo do nível do mar (Jericó, por exemplo), se vê submetida a um intenso calor durante o verão (uns 40 graus), mas no inverno possui uma estação muito agradável.

Também as chuvas variam na Palestina segundo a região (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Relevo-Palestina.jpg). Quanto mais próximas do Mediterrâneo, mais chuvas as terras recebem, pois as montanhas atuam como uma barreira que detém os ventos úmidos do mar e as faz descarregar sobre as ladeiras ocidentais. As ladeiras voltadas para o oriente, portanto, são mais secas. Berseba, no Negev, registra uma média de 143 mm. cúbicos de chuva por ano, Jerusalém alcança 583, mas quase toda esta quantidade de chuva cai entre dezembro e março. Ano promissor é aquele em que as chuvas precoces ou de outono começam a cair em outubro, no tempo da semeadura, e a chuva tardia ou de primavera, em março ou abril, pouco antes da colheita. São numerosas as alusões bíblicas a estes dois tipos de chuvas: Dt 11.14; Os 6.3; Jr 5.24; Jl 2.23. Há que se ter em conta que as chuvas não se concentram exatamente nos dois períodos mencionados, e sim, tendem a distribuir-se no período intermediário. Os meses de verão, de junho a setembro, costumam ser extremamente secos, exceção feita a uma ou outra tormenta na costa. As chuvas não possuem nada de extraordinário para os ocidentais, mas para os israelitas recém chegados do Egito ela devia causar uma grande impressão, pois lá as águas vêm do Nilo, e não do céu (Dt 11.10-25). A neve não é desconhecida nas montanhas da Palestina, por exemplo, em Belém, Jerusalém ou Hebrom (http://www.bibleplaces.com/jerusalemsnow.htm). Na Transjordânia, as nevascas às vezes chegam a bloquear as estradas.

O caráter sazonal das chuvas significa que é preciso guardar água em cisternas (Gn 37.22; Pv 5.15; Jr 38.6), com vistas à estação seca, a menos que uma cidade seja tão afortunada que conte com um manancial nas imediações, como a fonte Gihon em Jerusalém, para dispor de “água viva” (daqui as imagens de Ez 47.1; Zc 13.1; Jo 4.10-14). Um acidente característico da Palestina é o wadi, leitos temporários de água, secos no verão, e que transportam torrentes de água durante as chuvas de inverno. Quando estão secos, estes wadis servem de caminhos para subir dos vales para as montanhas. São muito escassos os vales que contam com um curso permanente de água.

Ocupemo-nos agora com as quatro faixas de terra no sentido norte-sul. Vamos começar com a região montanhosa da Transjordânia, descrevendo-a de sul a norte, de acordo com a etapa final do êxodo, que proporcionou a Israel o primeiro contato com esta região.

 

3.3 – AS QUATRO FAIXAS PARALELAS NO SENTIDO NORTE-SUL

 

3.3.1 – A TRANSJORDÂNIA

 

As montanhas da Transjordânia são mais elevadas que as da Palestina. Estão cortadas de leste a oeste por tremendas gargantas ou cânions, que conduzem ribeiros permanentes de água. Enumerados do sul para o norte, são eles: o Zerede (Nm 21.12; Dt 2.13), que desemboca no extremo sul do Mar Morto; o Arnom (Nm 21.13; Dt 3.16), que desemboca na metade do mar Morto, 12 km ao sul da fortaleza herodiana de Maquerus e que formava a fronteira sul da Peréia no período do NT; o Jaboque (Gn 32.22), que desemboca no rio Jordão, na metade do vale de mesmo nome (http://www.bibleplaces.com/jabbok.htm); e o Jarmuque, que desemboca 6 km ao sul do mar da Galiléia. Estas gargantas serviam muitas vezes de fronteiras naturais às antigas populações da Transjordânia.

As montanhas do sul da Transjordânia, que constituem os antigos domínios de Edom, começam a uns 30 km a nordeste de Eilat, no golfo de Ácaba. A rota vai seguindo o wadi Yetem, que forma uma passagem através das montanhas graníticas de Midiã. Logo cruza o Hasma para as montanhas de EDOM. É um lugar fantástico, mais próprio da superfície lunar que da terrestre: uma grande planura de areia da qual se destacam, isolados, picos de rochas arenosas, cortadas por precipícios enorme (http://www.bibleplaces.com/edom.htm). A região mais famosa do Hasma é o wadi Rum, a região em que se movia Lawrence da Arábia, no qual os picos se elevam bruscamente a 800 metros sobre o nível do vale(http://www.bibleplaces.com/wadirum.htm).

A meseta montanhosa de EDOM se leva a mais de 1600 metros, com um comprimento de uns 110 km de norte a sul e uma largura de cerca de 25 km. No oeste, as montanhas estão cobertas por uma vegetação raquítica, alimentada pelas últimas gotas de chuva que as nuvens provenientes do Mediterrâneo deixam cair. Nesta parte, a inclinação forte em direção ao vale do Arabá (o prolongamento da depressão do Jordão ao sul do mar Morto) oferecia uma defesa natural. Para o leste, as montanhas baixam suavemente para o deserto, e este lado tinha que ser protegido por fortificações. Ao menos durante parte de sua história o limite norte de Edom foi o Zerede ou o arroio dos salgueiros (Is 15.7), tendo em frente a Moabe (Nm 21.12; Dt 2.13). Grande parte destas mesetas de Edom estão formadas por rochas arenosas, facilmente atacáveis pela erosão. No sul de Edom,  Petra, a cidade de cor rosa escavada nas rochas arenosas e antiga capital dos árabes nabateus merece ser citada como uma das maravilhas do mundo (http://www.bibleplaces.com/petra.htm).

A meseta de Edom pode ser dividida em duas partes desiguais pela baixada de PUNOM, 40 km a sudeste do mar Morto, pela qual o vale do Arabá  adentra uns 15 km nas montanhas até formar uma passagem muito estreita. A região situada ao sul de Punom é mais elevada, e nela estavam situadas as fortalezas edomitas de Temã (Jr 49.7) e Selá, praticamente inexpugnáveis ( discute-se acerca da localização de Selá; há que pôr em dúvida a tradição popular que a identifica com Umm el-Biyara, no centro de Petra). Ao norte de Edom, as cidades principais eram Bozra (Gn 36.33; Mq 2.12) e o rico centro agrícola de Tofel (Dt 1.1). A Bíblia une seguidamente as cidades de Bozra, no norte e Temã, no sul, para designar a totalidade de Edom (Gn 36.33-34; Jr 49.20-22; Am 1.12).

Os montanheses da meseta edomita, que moravam “nas tendas das rochas”(Ob 3) não podiam manter-se só à base da agricultura e da criação de gado. Extraíam cobre de suas montanhas e exigiam taxas das caravanas que seguiam pela estrada real em direção ao norte, atravessando sua meseta (http://www.bibleplaces.com/punon.htm). Este contato permanente com estrangeiros pode ter contribuído para dar-lhes a fama de sábios ( Jr 49.7).

O território de MOABE, em sentido estrito, perece que se estendeu entre os ribeiros Zerede e Arnom (Dt 2.24;Nm 22.36), a leste, portanto, da metade sul do mar Morto. Porém Moabe muitas vezes estendeu suas fronteiras para além do rio Arnom, de modo que, como no caso de Edom, se pode falar de uma Moabe do Norte e de uma Moabe do Sul, com o Arnom como o limite entre ambas (Jr 48.20 implica que o Arnom era o traço geológico mais característico de Moabe) (http://www.bibleplaces.com/moab.htm). No sul, a cidade mais importante era Quir-Heres (2 Rs 3.25; Is 16.11), a moderna Kerak, impressionante fortaleza natural situada sobre uma colina isolada. Atualmente ela está coroada por um castelo dos cruzados, testemunho mudo de que desde os tempos bíblicos até a primeira guerra mundial esta foi uma das mais importantes praças fortes de toda a Palestina. Em 2 Rs vemos como esta fortaleza moabita fez frente às forças reunidas de Israel e Judá.

Na parte norte de Moabe, Aroer (Dt 2.36) dominava pelo lado norte a grande garganta do Arnom, com desníveis de mais de 700 metros de profundidade. Oito km mais ao norte se encontra Dibom (Nm 21.30), a atual Dhiban, cidade importante cujos muros foram recentemente escavados. Mais ao norte, numa rica planície, estava Madeba (Is 15.2), famosa por causa do mapa em mosaico nela encontrado em fins do século XIX. (http://www.bibleplaces.com/madabamap.htm). Mesa, rei de Moabe, se gloria de havê-la reconquistado de mãos israelitas, na estela que erigiu em Dibom para comemorar suas vitórias (a “pedra de Moabe”, uma pedra de basalto negro de ca. 830 a. C., encontrada em 1868 nas ruínas de Dibom) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_Moabita). Ao norte, a passagem para Moabe estava protegida pela fortaleza de Hesbom ( Is 15.4;16.8-9).

Uns 8 km a oeste de Madeba e Hesbom, dominando o mar Morto, estava o lugar de onde Moisés contemplou panoramicamente a terra prometida e onde também morreu, chamado de monte Nebo na tradição P (Dt 32.49) e Pisga na E (Dt 34.1) (http://www.davidguerrero.com/viajes/orientemedio2003/montenebo/index.html http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/Giord/04bGiordEs.html#Nebo). Possivelmente se trata de dois promontórios de uma mesma montanha. Nos tempos do NT, a sudoeste do Nebo e perto do mar Morto, estava a fortaleza de Maqueronte, um pico isolado que Herodes Magno converteu em fortaleza inexpugnável. Segundo o historiador judeu Flávio Josefo (Ant.18.5,2) ali João Batista encontrou a sua morte (Mc 6.14-29) (http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/Giord/05GiordEs.html). Nas fontes termais situadas nas proximidades, em Callirhoe, Herodes buscou alívio para a sua enfermidade (http://www.bibleplaces.com/callirhoe.htm).

Como dissemos, a ocupação dos territórios situados ao norte do rio Arnom pelos moabitas nem sempre foi reconhecida por outras populações. Assim, por exemplo, quando Moisés conduziu a Israel através da Transjordânia, os amorreus haviam ocupado Hesbom e os territórios mais ao sul, até o rio Arnom, incendiando Madeba e saqueando Dibom (Nm 21.26-30). Em seguida, parte dos territórios moabitas do norte foram ocupados pela tribo de Rúben (Nm 32.37; Js 13.9), mas esta tribo foi rapidamente destruída por uma agressiva expansão de Moabe, que chegou inclusive a Jericó, atravessando o Jordão (Jz 3.12ss;Gn 493-4). Há que notar-se que as planícies de Moabe, onde os israelitas acamparam antes de cruzar para Jericó, não estava situada na meseta moabita, e sim, no vale do Jordão,  no nordeste do mar Morto.

O território da meseta moabita é muito diferente dos difíceis promontórios meridionais de Edom. Mesmo que certos cultivos, como o trigo ou a cevada, só sejam possíveis em uma zona muito reduzida, principalmente na parte norte do território, a meseta oferece boas pastagens. Inclusive em nossos dias, as negras tendas dos beduínos marcam o país, assinalando os lugares em que apascentam seus rebanhos. Economicamente são descendentes de Nessa, rei de Moabe, que “era pastor de ovelhas e tinha que entregar todos os anos ao rei de Israel cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros” (2 Rs 3.4). Quando  Rúben ocupou o território moabita, teve tanto trabalho com o gado, que não pode prestar ajuda a seus parentes das outras tribos em tempos de guerra (Jz 5.16). A riqueza de Moabe talvez explique o orgulho de que Jr 49.26 e Is 25.10-11 acusam a seus habitantes. Gn 19.37 faz os moabitas descender da união incestuosa de Ló com sua filha primogênita. Rute, bisavó de Davi e da linhagem de Jesus, era moabita (Rt  4.5,17; Mt 1.5).

Ao norte de Madeba e Hesbom se estende a longa faixa de terra de Gileade, paralela a grande parte da depressão do rio Jordão, entre o mar Morto e o lago da Galiléia. Antes de estudarmos esta região, demos uma olhada em AMOM, território situado a leste de Gileade e a nordeste de Moabe do norte. Ali os amonitas se estabeleceram numa zona mal definida de terra que ia desde o rio Jaboque, no norte, até, em ocasiões, o Arnom, no sul, quando Moisés introduzia os israelitas na Transjordânia (Jz 11.13). Amom parece o mais débil dos reinos que temos estudado. Para se ter uma idéia da situação flutuante da fronteira, basta notar que, ao atacar o reino amorreu de Hesbom (que depois passaria a ser território de Rúbem), Israel não pensava atacar nem a Moabe nem a Amom, se bem que ambos os povos reivindicassem aquele território. Note-se que Js 13.25 caracteriza o território de Gade, sul de Gileade, como país amonita.

Se as fronteiras de Amom estavam confusas, sua capital era indiscutivelmente Rabat-Amom (em tempos do helenismo, Filadélfia da Decápolis, atualmente Amã, capital da Jordânia). (http://www.bibleplaces.com/amman.htm). A formidável cidadela montanhosa desta localidade ofereceu enérgica resistência ao exército de Davi (2 Sm 11.14-21; cf. Am1.14). Em tempos posteriores, ca. de 400 a.C., Tobias, o amonita, grande inimigo de Neemias ( Ne 4.1;6.1-17;13.4), parece ter  estabelecido seu quartel general numa fortaleza chamada agora Araq el-Emir, que foi recentemente escavada.

O país de Amom, encerrado entre as montanhas do sul de Gileade e o grande deserto, era um planalto. Seu território mais fértil era o vale do rio Jaboque superior, rio que nasce perto de Rabat-Amom e avança para o norte antes de dobrar para o oeste em direção ao vale do Jordão (http://www.bibleplaces.com/jabbok.htm). Os amonitas, que haviam se apossado por força desta região, se viam obrigados a defendê-la constantemente de saqueadores procedentes do deserto (o mal que ameaça os amonitas em Ez 25.4-5). Se bem que nunca foram muito fortes, os amonitas puderam organizar às vezes rápidos ataques contra tribos israelitas (Jz 10.9; 1 Sm 11.1; Am 1.13; 2 Rs 24.2; Jr 40.14). Quando tinham que enfrentar um Israel unido, precisavam de ajuda alheia (2 Sm 10.6). Amom estava submetida a Israel durante longos períodos (2Sm 12.31; 2 Cr 27.5). Segundo 1 Rs 11.7, sua religião exigia sacrifícios humanos ao deus Moloque.

Quanto à GILEADE, o rio Jaboque, em sua descida desde as montanhas da Transjordânia para o vale do Jordão, divide este território em duas partes. A parte do sul, conquistada do rei amorreu de Hesbom (Dt 2.36; Js 12.2) foi concedida à tribo de Gade. A parte norte, tomada do rei de Basã (Dt 3.10;Js 12.5) foi concedida a uma parte da tribo de Manassés( cf. Dt 3.12-13; Js 13.25,31, se bem que o limite entre as tribos, assim como aparece na Bíblia, apresenta muitas vezes uma evolução histórica mais complicada do que supõem os relatos).

Gileade tem uma configuração oval, de uns 55-65 km no sentido norte-sul e 40 km no sentido leste-oeste. A meseta montanhosa tem aqui uma forma de cúpula , chegando a elevar-se a 1.100 metros. Devido à sua altitude, recebia chuvas abundantes graças às nuvens que, procedentes do Mediterrâneo, chegavam até aqui no inverno. As colinas de pedra armazenam água e isso dá origem a abundantes mananciais. Antigamente, Gileade, especialmente o norte deste território, estava coberto de abundantes bosques (Jr 22.6; Zc 10.10). Era famoso o bálsamo que se obtinha das árvores de Gileade (Jr 8.22;46.11), que se exportava para a Fenícia (Ez 27.17) e para o Egito (Gn 37.25). Também abundavam os vinhedos neste região. Extraia-se minerais de sua montanhas e os bosques proporcionavam abundante combustível para suas fundições.

O país era exposto a contínuos ataques dos amonitas pelo sul e dos arameos pelo norte. Da campanha de Gideão, temos notícias de cidades importantes de Gileade, como Sucote e Penuel, ambas situadas nas imediações do Jaboque. Sucote poderia ser  Tell Deir-Alla, um enorme montículo situado na conjunção dos vales do Jaboque e do Jordão. Escavações recentes sugerem que houve uma conquista israelita por volta de 1200 e uma ocupação filistéia posterior. Até agora não se tem provas de que os filisteus chegaram a controlar tão grande extensão no vale do Jordão. Penuel, muitos quilômetros a leste do vale do Jaboque, é o lugar da luta sustentada por Jacó com um anjo (Gn 32.30-31). Ao que parece, serviu de capital ao reino norte nos tempos de Jeroboão I (ca.915; 1 Rs 12.25). Maanaim, outro importante centro de Gileade (Gn 32.2), ao sul do Jaboque, foi a “capital do exílio” de Is-Bosete, filho de Saul (2 Sm 2.8). Uma das razões para se estabelecer estas capitais provisórias em Gileade era que a configuração do terreno dava vantagens ao movimento de pequenas tropas em relação a exércitos maiores, de tal modo que este país converteu-se num lugar de refúgio, por exemplo, para Davi, quando fugia de Absalaão (2 Sm 17.24) (http://www.bibleplaces.com/gileadlower.htm).

Jabes-Gileade, importante cidade situada ao norte do território, mantinha, ao que parece, estreitas relações com Benjamim, instalado na outra margem do Jordão (Jz 21.5-12; 1 Sm 11) (http://www.bibleplaces.com/gileadlower.htm). Ramote-Gileade, a leste, cidade levítica de refúgio (Dt 4.43), desempenhou importante papel nas guerras do século IX entre Israel e os arameus da Síria (1 Rs 22; 2 Rs 8.28). Nos tempos do NT, Gerasa (Mc 5.1-20) (http://www.bibleplaces.com/gerasa.htm)(http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/Giord/01GiordEs.html#Jerash), uns 8 km ao norte do Jaboque, e Gadara (Mt 8.28-34) (http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/Giord/02GiordEs.html#Gadara), no extremo noroeste de Gileade, com uma vista impressionante sobre o rio Jarmuque, eram importantes cidades da Decápolis. Pela (http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/Giord/01GiordEs.html#Pella), no vale do Jordão e ao pé das montanhas do norte de Glieade, era outra cidade da Decápolis, que, segundo Eusébio de Cesaréia, serviu de refúgio aos cristãos palestinenses no tempo da guerra judaica contra os romanos (66-70 d.C.).

Poucos quilômetros ao sul do Jarmuque, as montanhas de Gileade descem suavemente e formam uma meseta muito fértil. São os campos de BASÃ, conhecidos atualmente como as colinas de Golam (http://www.bibleplaces.com/golanheights.htm). Eles iniciam às margens do rio Jarmuque, seguem paralelos ao lago de Genezaré,  alcançam o pé do monte Hermom no norte, e a leste vão até as negras montanhas vulcânicas do Gebel Druze.Aqui as chuvas são suficientes, pois as colinas baixas da Galiléia não chegam a impedir  a passagem das nuvens procedentes do Mediterrâneo, que podem regar os campos de Basã. Em muitas partes desta região, o solo é formado por ricos depósitos vulcânicos. Ao juntar-se a água das chuvas e a fertilidade do solo, Basã se converte em região produtora de grãos, que abastece de trigo a esta região, além de possuir boas pastagens para o gado. A gordura dos animais de Basã tornou-se proverbial na Bíblia (Sl 22.12; Am 4.1; Ez 39.18). Para o leste, nas ladeiras do Gebel Druze, cresciam robustos carvalhos, de modo que Basã era comparada com o Líbano pelo esplendor de suas árvores (Is 2.13; Na 1.4; Ez 27.6;Zc11.1-2). Os bosques de Basã serviam muitas vezes de refúgio a quem se encontrava em apuros (Sl 68.15,22; Jr 22.20).

São escassas as referências bíblicas a lugares concretos de Basã, pois Israel só controlou este território em momentos de maior esplendor. Uma das cidades de Ogue, rei de Basã, era Salcá (Dt 3.10, a moderna Salkhad), no Gebel Druze, e Edrei ( a moderna Der’a), situada mais a oeste, onde teve lugar a vitória de Moisés sobre Ogue (Nm 21.33-35). Nos tempos de Davi, o reino arameu de Gesur se estendeu até ocupar a porção de Basã, perto do lago da Galiléia. Este reino foi submetido por Davi, e dali procedia a princesa que foi mãe de Absalão ( 2 Sm 3.3;13.37-38). No século IX, Basã foi cenário de lutas entre Israel e os sírios de Damasco (2 Rs 10.32-33). Nos tempos dos macabeus, houve lutas neste território, quando Judas acudiu os judeus estabelecidos em Bosor, Bosra e  Carnain ( 1 Mac 5.24-52).

Na época do NT, várias cidades que integravam a DECÁPOLIS (