| DABAR 2007 EST - CEBI |
GEOGRAFIA BÍBLICA |
prof.Verner Hoefelmann |
Geografia é a ciência que descreve
a superfície de uma região, seus acidentes físicos, climas, solos e vegetações,
assim como as relações das pessoas com esse meio. Ela não explica tudo, mas
fornece elementos importantes para que se possa compreender a história, a
economia, a organização política, a cultura, enfim, a forma de pensar e viver
de um povo.
A Bíblia descreve sua
geografia com palavras poéticas e idílicas: “a terra que mana leite e mel” (Ex
3.8; 13.5; 33.3; Lv 20.24; Nm 13.27; 14.8; 16.13,14; Dt 6.3; 11.9; 26.9,15; 26.15; 27.3; 31.20; Js
5.6; Jr 11.5; 32.22; Ez 20.6,15). Quem não conhece a região, pode ser traído
por essa expressão. Com algumas poucas exceções, a paisagem é sóbria, com colinas,
montanhas pedregosas, vegetação pobre, grandes áreas semi-desérticas ou
desérticas. A expressão só adquire sentido para quem procede do grande deserto
siro-arábico. Foi a partir dessa perspectiva que os israelitas viram a terra
prometida, depois de vagar pelo duro deserto.
O território bíblico é
conhecido por diversas expressões: a) Terra
de Canaã ou Canaã: A Bíblia emprega esse nome quando a terra era só uma
esperança e uma promessa. Por isso ele aparece nada menos que 78 vezes de
Gênesis a Juízes (p.ex.: Gn 12.5; 13.12; 37.1; Nm 13.2; Js 17.12; Jz 1.9,27).
Depois que os textos bíblicos descreveram a ocupação do território pelos filhos
de Israel, esse nome é utilizado só raramente (11 vezes em Sl, Is, Ez, Os,
sempre como referência ao passado). O nome deriva de Canaã, quarto filho de Cão
e neto de Noé. Etimologicamente significa “habitante de terras baixas”,
indicando sua preferência por planícies. São os antecedentes dos fenícios (a
Fenícia é conhecida no Novo Testamento como “os lados de Tiro Sidom”).
Por referir-se apenas à região costeira do Mar Mediterrâneo, o nome não combina
com o restante do território, muito menos com a Transjordânia, do outro lado do
rio Jordão.
b) Terra de Israel: A expressão hebraica ‘erets Israel, utilizada na literatura rabínica e consagrada pelo
moderno Estado sionista, não aparece mais que onze vezes na Bíblia (1 Sm
13.19). Após o cisma entre o sul e o norte, designava apenas o reino do norte.
A expressão hebraica ‘admat israel,
usada dezenove vezes em Ezequiel, designa o solo da terra santa privado de seu
povo e da presença divina.
c) Terra de Judá ou Judéia: A princípio, referia-se apenas à area que
coube à tribo de Judá. Após a divisão do reino, o termo englobou a território
de Benjamim, formando a reino de Judá. Quando o povo voltou do cativeiro
babilônico e reorganizou a vida nacional, o nome passou a designar todo o
território compreendido na bênção de Jacó (Gn 49.8-12) e seus habitantes
passaram a ser chamados de “judeus”.
d) Terra prometida ou terra da promessa: Baseado na promessa feita a
Abraão em Gn 12.1-4, esse nome é usado pela tradição judaica, cristã e até
muçulmana. A expressão “a terra que Javé jurou dar a vossos pais” aparece 15
vezes em Deuteronômio (1.8; 6.10; 6.23; 28.11; 29.13).
e) Terra Santa: Baseado em Zc 2.12, o nome foi adotado por cristãos da
Idade Média (Ex 3.5; 1 Sm 13.19; Zc 2.12).
f) Palestina: O termo não aparece na Bíblia como designação da terra.
Fora do ambiente judaico, é hoje a designação mais comum. O nome foi utilizado
pelos romanos para designar a província da Judéia após a rebelião judaica
liderada por Bar Kochba nos anos de
Como se vê, a Bíblia não
conhece um nome fixo para designar o país habitado pelos israelitas. A falta de
um nome próprio, preciso e constante mostra que, apesar de ser um país pequeno,
ele nunca formou uma unidade homogênea bem definida, nem na geografia física,
nem na étnica, nem na política. Com raras exceções, a Palestina conheceu a
presença simultânea de populações distintas, condicionadas, por sua vez, por
forças políticas distintas. Como
não poderia deixar de ser, vamos
dedicar a maior parte de nossa exposição ao território que corresponde ao
centro dos acontecimentos bíblicos. Mas a geografia bíblica também deve
ser descoberta e estudada a partir dos países à sua volta, com quem o povo de
Deus compartilha características análogas e dentro dos quais se desenvolveu sua
vida. Por isso incluiremos na abordagem a Mesopotâmia e o Egito. À geografia
bíblica também pertence, a rigor, o território que circunda a bacia do
Mediterrâneo, em especial para o período do Novo Testamento. Mas devido à
extensão da matéria, não podemos dar atenção maior a ela.
Além
de situar os lugares mencionados na Bíblia, nos propomos nesse texto a estudar
a geografia bíblica. As informações que iremos prestar são as que possuem algum
interesse para contextualizar e compreender os textos bíblicos. Muitos dados
não bíblicos, que de um ponto de vista científico poderiam ter grande
importância geográfica, serão omitidos. Junto com detalhes geológicos,
topográficos e geográficos, incluiremos também alguns dados históricos do
período bíblico (inclusive medievais ou modernos), arqueológicos e até um “guia
turístico” da Terra Santa. Em uma palavra: daremos atenção àquilo que possa contribuir
para que se tenha um melhor conhecimento do país que serve de cenário para a
Bíblia. Observe-se, ao longo do texto, alguns sinais utilizados para orientar o
leitor: Palavra sublinhada designa personagens importantes; palavra
em negrito: nome de cidade; PALAVRA MAIÚSCULA EM
NEGRITO: nome de região; palavra em negrito e
sublinhada: nome de povos; palavra
sublinhada em itálico e negrito: rios. O texto apresenta,
igualmente, vários links com endereços da internet, que complementam as
informações ou as ilustram com imagens.
I -
FONTES PARA A GEOGRAFIA BÍBLICA
Situar
geograficamente os lugares mencionados na Bíblia nem sempre é uma tarefa fácil,
em especial quando não restaram vestígios claros de sua localização. Por isso a
pergunta pelas fontes da geografia bíblica é uma questão importante.
1.1 - FONTES
ANTIGAS
O
mapa mais antigo da região bíblica é
um mosaico do ano 600 d.C. Trata-se de uma
obra feita para decorar o piso de uma igreja bizantina, na cidade de Madeba,
próxima ao monte Nebo, na atual Jordânia. A obra representa a Terra Santa,
desde o Líbano até o Egito, incluindo Israel/Palestina, a Transjordânia e o
Sinai. Ela detalha montanhas, rios, vales, cidades, ruas e até locais de banho
e pesca no rio Nilo. Dos
Outro mapa muito antigo é o Tabula Peutingeriana. Trata-se
de mapa mundial com vias de
comunicação, reduzido a uma tira de uns
As origens do mapa bíblico, no sentido de
listas de cidades, se situam no antigo Egito, pois ali se encontram relações de
cidades palestinenses escritas sobre fragmentos de cerâmica, sobre tabletes de
argila e em muros de construções. Até
No período que segue a
Vêm
em seguida as listas de cidades que nos oferece o próprio AT e o NT. Estas listas e textos representam
uma grande contribuição para geografia bíblica. Incluem textos como Js 13-21
(listas de cidades de várias tribos); Gn 10 (lista de povos); 2 Cr 11.6-10
(cidades fortificadas) e os “oráculos contra as nações “ dos Profetas Maiores
(p. ex. Is 13-23; Jr 46-52; Ez 25-32). Também os textos do Novo Testamento, em
especial os evangelhos, Atos dos Apóstolos e o livro do Apocalipse, fornecem
informações importantes para a geografia da Terra Santa e do Império Romano.
Numerosas
informações são dadas, além disso, por autores clássicos como Heródoto,
Estrabão, Plínio, Josefo e o geógrafo Ptolomeu. A obra mais importante da
antiga topografia palestinense é o Onomasticon
de Eusébio, do ano de 330 d.C., um amplo
estudo geográfico-histórico da Terra Santa.
1.2 - FONTES
MODERNAS
A confecção de mapas da Palestina alcançou seu
apogeu em meados do século XIX. Em 1838, o clérigo de Boston, E. Robinson,
durante uma viagem pela Terra Santa que durou três meses, em companhia do
missionário Eli Smith, que falava o árabe, localizou mais lugares palestinenses
que os que haviam sido descobertos desde os tempos de Eusébio. O êxito sugeriu
a criação do British Palestine Exploration Fund e o seu Survey of Western Palestine com seis volumes.
Este trabalho está na base dos principais mapas
atualmente
Uma advertência quanto aos mapas: Todo mapa bíblico
leva implícito um juízo acerca da identificação dos lugares, especialmente
sobre a relação dos modernos nomes árabes de lugar e os antigos nomes citados
na Bíblia. Uma geografia científica da Palestina não pode prescindir de uma
constante confrontação com os nomes populares de lugar preservados na língua
árabe. Também é preciso ter em conta a dificuldade de transcrever os nomes
hebreus e árabes para outras línguas. Via de regra utilizaremos a grafia
utilizada pela versão de Almeida da Bíblia.
II-
GEOGRAFIA DOS PAÍSES CIRCUNVIZINHOS
2.1
– O CRESCENTE FÉRTIL
O território bíblico é parte
de um conjunto geográfico que por causa de sua configuração recebeu o nome de “Crescente
Fértil” (J.H.Breasted). Trata-se de um arco verde em forma de lua
crescente, com cobertura vegetal apreciável e duradoura, cujas pontas estão na
Mesopotâmia, no Oriente, e no delta do rio Nilo, no Ocidente (http://pt.wikipedia.org/wiki/Crescente_F%C3%A9rtil).
O corpo do arco passa entre os rios Tigre e Eufrates e nas costas orientais do
Mar Mediterrâneo. O Crescente Fértil é irrigado por rios mais ou menos
importantes: Tigre, Eufrates (Iraque), Orontes (Síria), Litani (Líbano), Jordão
(Palestina) e o delta do Nilo (Egito). A margem
externa do crescente é constituída pelos maciços montanhosos do planalto
iraniano, da Armênia e do Taurus. A margem
interna é formada por regiões semi-desérticas que fazem a transição para o
grande deserto Siro-Arábico. A Síria e a Palestina formam a parte mais estreita
desse crescente: entre o deserto e o Mediterrâneo, um corredor de menos de cem
quilômetros de largura faz a ligação entre a Mesopotâmia e o vale do Nilo.
Na área do Crescente Fértil ou em suas imediações
desenvolveram-se algumas das civilizações mais famosas da antigüidade, como a
suméria, a babilônica, a assíria, a persa, a egípcia, a hitita. Comparadas com
outras culturas, as civilizações do Crescente Fértil mostraram, muito tempo
antes do que em outras partes do mundo, um desenvolvimento singular, pelo fato
de ter ocorrido ali alguns fenômenos culturais da máxima importância. Um deles
é a revolução neolítica (ca. 7-8 mil anos a.C.). (http://greciantiga.org/his/his03-3a.asp)(http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/humanas/historia/tc2000/hisger1.pdf:
aula sobre o período pré-histórico). Ela consistiu na descoberta da técnica
da produção de alimentos. Enquanto que o ser humano do período paleolítico
vivia da caça e da coleta de produtos, no período neolítico a humanidade
tornou-se capaz de produzir sua alimentação, seja através da domesticação de
animais e da criação de rebanhos, seja através da “domesticação” das plantas,
pelo cultivo de cereais, leguminosas e frutas. Outras inovações vieram
complementar a anterior, como a descoberta da cerâmica (6000-
Demos inicialmente alguma atenção à margem interna do Crescente
Fértil, formada pelo DESERTO
SIRO-ARÁBICO. Trata-se de um dos maiores desertos do planeta. Abrange a
maior parte da península arábica, assim como enormes superfícies dos atuais
Estados da Jordânia, da Síria e do Iraque. Seu índice de pluviosidade fica
abaixo dos
O
deserto não é completamente estéril. Quando a chuva cai em alguns invernos, as águas formam rios temporários (wadis), às vezes de poucas horas, no leito dos
quais aparece depois uma vegetação estacional, que é o segredo da vida no
deserto. Para ali vão os beduínos com seus rebanhos, cuja subsistência depende
ao mesmo tempo do conhecimento de poços,
que nunca faltam no deserto e que fornecem a água para as pessoas e animais.
Não é raro que em torno de poços se formem oásis com vegetação abundante (http://www.voyagevirtuel.com/jordanie/jordanie-wadi-rum_53.php).
2.2 – ABRAÃO E O CRESCENTE
FÉRTIL
A
geografia bíblica não começa na Palestina, e sim, no vale do rio Eufrates, (http://www.arabias.com.br/cultura/civilizacao.htm), na extremidade
oriental do Crescente Fértil. Os mais antigos nomes de lugar identificados na
Bíblia são os que guardam relação com Abraão, em Gn 11.31, concretamente, Ur e
Harã. A existência de água nesta região determinou o estabelecimento de centros
agrícolas ou “sedentários”, condicionando ao mesmo tempo o traçado das rotas
comerciais utilizadas para o trânsito entre as grandes zonas exportadoras.
Veremos como os movimentos de Abraão coincidem com a mais importante rota de
caravanas que unia os dois extremos do Crescente Fértil, a Babilônia e o Egito.
No
extremo babilônico da lua crescente se encontrava Ur (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ur), que a Bíblia identifica como o lugar de
origem de Abraão (Gn 11.28-31). Alguns investigadores põem em dúvida a
exatidão desta notícia. De fato, não se menciona Ur na passagem correspondente
da LXX em Gn 11.28,31. Porém, mesmo que Abraão fosse oriundo de Harã, no
noroeste do vale, é provável que antes tivesse viajado para Ur, a sudeste, centro
cultual máximo para a antiguidade.
Esta
região da bacia do rios Tigre e Eufrates, perto do Golfo Pérsico, é chamada de TERRA DE SINEAR em Gn
10.10. Isto significa país dos sumérios, antigos ocupantes não semitas daquela
região. Perto de Ur se encontra Uruk, a
Ereque de Gn
10.10 (atual Warka), cujo rei Gilgamesh (ca.
A
partir de 2500a.C., os amorreus semitas (‘ocidentais”, por proceder do
sul da Arábia ou da Síria, ao noroeste) começaram a invadir o antigo território
dos sumérios. A mais antiga das dinastias estabelecidas nesta região teve seu
centro em BABILÔNIA, uns
Passado
um milênio, Babilônia voltaria a ocupar um lugar importante na história
israelita, quando Judá foi levado para o cativeiro
babilônico (598 e
Em virtude de um destes contatos com o país
babilônico, Israel se familiarizou com a mitologia suméria da criação, o poema Enuma
Elish, do qual se podem tomar algumas imagens de Gn 1-2. (http://www.klepsidra.net/klepsidra23/gilgamesh.htm). O jardim
do Éden, de Gn 2.10-14, é concebido como um lugar úmido na confluência dos
rios Tigre e Eufrates, que aos parentes de Abraão, descalços e empoeirados,
recém chegados do deserto arábico, devia parecer um verdadeiro paraíso.
Bem
ao leste da região descrita fica a região montanhosa da PÉRSIA , cujo rei,
Ciro, seria o libertador dos judeus em 538, ao pôr fim ao cativeiro que
estes haviam sofrido na Babilônia (http://www.painsley.org.uk/re/Atlas/persemp.gif). O ambiente
cortesão da Pérsia e a religião deste povo, o zoroastrismo, formam parte do
cenário dos últimos livros do AT: Neemias, Ester, Daniel.
Em
sua viagem para o noroeste desde Ur, Abraão seguiu a rota que se estende entre
Mari e Nuzi. Em cada um destes centros, as escavações mais recentes têm dado a
conhecer milhares de documentos em tábuas de argila (só em Mari são cerca de vinte
mil), que ajudam a explicar muitas das tradições patriarcais de Gênesis. A
história de Mari, situada
junto ao rio Eufrates, está ligada ao nome de Hammurabi. Perto dos
modernos campos petrolíferos de Kirkuk, se encontra Nuzi. Entre
esta e Harã se estendia antigamente a região chamada Mitanni. Seus
habitantes se chamavam hurritas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Usu%C3%A1rio:Lenicio), que aparecem na Bíblia possivelmente com
o nome de hiveus ou hititas. Seus
documentos de negócios, que refletem o comércio que mantinham com mercadores
assírios, servem igualmente para ilustrar muitos costumes bíblicos da época
patriarcal.
Harã,
identificada na Bíblia como o lugar
O
extremo do arco que forma o Crescente Fértil avança de Harã até o Eufrates, na
direção oeste. No lugar em que o rio cruza a atual fronteira turca se encontra Carquemis (2 Cr 35.20; Jr 46.2), posto avançado do Império hitita até
A
partir deste ponto, a rota de caravanas dobra bruscamente para o sul, seguindo
a linha Alepo-Hama-Damasco-Jerusalém. Alepo era uma antiqüíssima cidade, conhecida já
nos documentos de Mari com o nome de Iamhad (http://pt.wikipedia.org/wiki/Alepo).
Junto à costa, a oeste de Alepo, estava a cidade-estado de Ugarit, a
moderna Ras Shamra. Os arquivos desenterrados aqui a partir de 1929 demonstram
que Ugarit era poderosa o bastante para firmar tratados com o Império hitita,
rival do Egito e da Síria. A língua em que estão escritos estes textos, o
ugarítico, tem grande importância para o estudo do hebraico primitivo. Outra
poderosa cidade-estado, mais ao sul e terra adentro, era Hamate (Gn 10.18;
Nm 34.8; Js 13.5; Ez 47.16; 2 Sm 8.9-10), atual Hama. Também Hamate foi palco
de batalhas decisivas, já que guardava a saída norte do vale formado pelas
cadeias montanhosas do Líbano e do Antilíbano. Esta “entrada de Hamate” é
considerada, em alguns textos, como o limite norte da terra prometida (Nm
34.8). Ainda mais antiga e importante era Damasco. Como
cidade bem abastecida de água e situada à borda do deserto, era a última
oportunidade para aprovisionar as caravanas. Surpreende que a Bíblia, ao descrever
o itinerário de Abraão (Gn 12.5), não mencione estes centros, dando um salto de
Harã para o centro do país cananeu, isto é, até o lugar que logo receberia o
nome de Samaria.
CANAÃ, a terra
prometida, era um país pequeno, à borda da ponta sudoeste do Crescente Fértil.
Mas ocupava uma posição estratégica entre os estados comerciantes rivais:
Arábia a sudeste, Egito à sudoeste, os hititas ao norte e Babilônia ao leste.
Considerando as linhas de tráfego e a densidade da população, Canaã pode ser
considerada o eixo do Crescente Fértil. Certamente foi o eixo de todo o mundo
conhecido desde os tempos de Abraão até os de Alexandre Magno.
Os
clãs de Abraão, em sua migração desde a Mesopotâmia, não reclamaram como sua, a
princípio, a terra de Canaã. Mas Abraão aparece com direito de assentar-se em
Canaã devido às experiências que teve em seus mais importantes centros de culto: Siquem, Betel, Hebrom
e Berseba. Na realidade, sua estadia na Terra Santa se reduziu a um
assentamento nômade na rota que levava ao término natural da viagem: o Egito.
Porém a migração que leva seu nome pode muito bem ter-se desenvolvido em ondas
sucessivas ao longo de várias gerações. Vistas assim as coisas, pode-se dizer
que ela só terminou após a ida de Jacó para unir-se com José no Egito (Gn
46.7). Resulta assim que a última parte da migração designada com o nome de
Abraão se integra naquele movimento que as notícias extra-bíblicas designam
como invasão dos hicsos. Hicsos é um termo egípcio que significa
“monarcas estrangeiros” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hicsos).
Alude aos imigrantes asiáticos que se instalaram no nordeste do delta do Nilo,
e desde sua capital, Avaris, governaram o Egito entre 1700 e 1570. Alguns
investigadores modernos opinam que em realidade não se tratou de uma invasão, e
sim de uma horda que se foi infiltrando pacificamente. Em sua maior parte eram
semitas, se bem que não falta quem sustente que, ao menos no que se refere à
sua casta governante, havia também entre eles elementos hurritas. Os parentes
de José, portanto, se instalaram na porção nordeste do delta, no território que
a Bíblia designa com o nome de Gósen (Gn 47.6). Ali, na ponta sudoeste do
Crescente Fértil, ia-se preparando o cenário do Êxodo.
2.3 – MOISÉS: O
EGITO E O ITINERÁRIO DO ÊXODO
O “povo de Deus” bíblico, seja quais
forem suas origens, parece que chegou a adquirir consciência de sua unidade
nacional devido em grande parte à experiência que muitos de seus componentes
tiveram no Egito. É neste ponto que muitos pesquisadores modernos põem o começo
da história e da geografia bíblica. Considera-se a história de Abraão
essencialmente como um relato de como algumas tribos semitas fizeram uma
migração com a finalidade de estabelecer-se no Egito. Este país, mais que um
“dom do Nilo”, como dizia Heródoto, é
o Nilo (http://www.bibleplaces.com/nileriver.htm). Ao longo
de suas margens se estende uma faixa de uns
No sul, em direção à primeira
catarata, a uns
No vértice do delta, onde o Nilo se
divide em diferentes braços, se assentava Mênfis (Mof em Os 9.6; Nof em Is 19.13;Jr 2.16;
Ez 30.13), a mais antiga capital do Egito (http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%AAnfis) . Perto
dali, na direção norte, se achava Om/Heliópolis, pátria do sogro de José (Gn 41.45). Entre
Mênfis e Heliópolis havia um grande cemitério, com suas imortais pirâmides e as
esfinges (Cairo
surge apenas após a invasão muçulmana, sobre um antigo forte romano
chamado Babilônia, perto do local em que a lenda situa o término da viagem da
Sagrada Família ao Egito – Mt 2.14). Em tempos de Alexandre Magno , no
extremo noroeste do delta, se edificou a grande metrópole e porto marítimo de Alexandria (http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandria http://www.bibleplaces.com/alexandria.htm), onde se instalou uma forte comunidade judaica, que
produziu a versão grega de alguns livros hebraicos (a Septuaginta). Apolo, que deu continuidade ao trabalho de Paulo em
Corinto, é originário de Alexandria (At 18.24-28). Perto de Alexandria se
descobriu, em tempos de Napoleão, a famosa Pedra
de Roseta, que serviu para decifrar a linguagem egípcia (1799) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_de_Roseta).
Para a história do êxodo, datado
atualmente no século XIII, interessa sobretudo a porção nordeste do delta. Ramsés
II (ca.1290-1224) da dinastia XIX, deixou vários monumentos no vale do Nilo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rams%C3%A9s_II), sobretudo em Tânis (a Zoã de Is
19.11; Ez 30.14; Sl 78.12). É muito verossímil que esta cidade tivesse ocupado
o lugar de Avaris, a
antiga capital dos hicsos quatrocentos anos atrás. Nm 13.22 relaciona sua fundação
com a de Hebrom e, por conseguinte, com os tempos dos patriarcas. Ramsés II
ou seu pai Seti( 1304-1290) reedificou aquele lugar e lhe deu o nome de Ramessés (Ex
1.11). Foi nesta região de Tânis/Ramessés (cf. Gn 47.6,11; Sl 78.12,43) que os
descendentes dos patriarcas sofreram a escravidão,
obrigados a trabalhar nos projetos monumentais do faraó. A terra de Gósen (Gn
45.10;47.11) se estendia ao sul, abarcando Maskute (provavelmente, a Sucote de Ex
13.20) e Pitom (Ex
1.11). Segundo documentos egípcios, o wadi
Tumilat, nesta região, era lugar freqüente de refúgio para os
asiáticos que fugiam de fome ou de condições políticas desfavoráveis.
A debatida questão da rota
do êxodo está intimamente
relacionada com a localização do monte Sinai. SINAI E HOREBE não são
montes distintos, e sim, nomes de um mesmo lugar que aparecem, respectivamente
nas tradições J e E-D do Pentateuco. Há pelo menos quatro possibilidades para
localizar esta santa montanha:
1)
Ao sul da península
do Sinai. O nome
mesmo desta península pressupõe como correta a tradição segundo a qual o Gebel Musa (Monte
Moisés), em cuja base se assenta o mosteiro de Santa Catarina, é o monte Sinai.
2)
Na Arábia (cf. Gl
4.25): A fumaça e o tremor de terra de que se fala em Ex 19.18 sugerem que
havia um vulcão em erupção, e o mais próximo é o Talt-Badr, na moderna Arábia,
bem a sudeste da península do Sinai. Ptolomeu, o antigo geógrafo, chamava a
esta região de Modiane, o que corresponde à Midiã de Ex 3.1. Apesar destes dois fatos
independentes em favor de Talat-Badr, parece que a Arábia fica demasiadamente
longe do Egito para ser o cenário do êxodo.
3)
Na Transjordânia: O nome
de Midiã se aplica a uma longa faixa de terra bem ao norte, até Galaade na
Transjordânia (cf. Jz 6). Uma possível localização do Sinai seria, nestas
paragens, Petra, já que
as cores de fogo de suas rochas eram objeto de veneração desde muito tempo. Há,
além disso, uma tradição árabe segundo a qual Aarão foi enterrado ali (Nm
20.28). Esta teoria, como a anterior, não conta com defensores na atualidade,
porque neste caso o Sinai ficaria demasiadamente a leste.
4)
No Negev: esta
hipótese situa a teofania do Sinai
Duas são as possíveis rotas do
êxodo que merecem uma consideração atenta: a do norte, que corresponde
quase sempre à localização do Sinai segundo a teoria 4, e a do sul, de acordo
com a localização da teoria 1.
Em
primeiro lugar, a teoria da rota norte
sugere que os israelitas saíram de Tânis/Zoã diretamente para Cades-Barnéia,
cruzando pela região norte da península do Sinai (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Exodo-3.jpg). Este
seria o caminho mais curto e natural para ir do Egito à Palestina. Ela fica,
sem dúvida, explicitamente excluída por Ex 13.17, embora se possa entender a
referência aos filisteus como uma glosa anacrônica ( mesmo que os filisteus
pirateassem pela costa palestina já no século XIII, não parece que tivessem
tido um controle firme do sul de Canaã antes de 1180-1150, muito tempo depois
do êxodo). Se quisermos harmonizar a descrição bíblica dos lugares percorridos
durante o êxodo com a teoria da rota norte, temos que identificar o “mar dos Juncos” de Ex 13.18;14.22 (o texto
hebraico diz “mar de Juncos”; o “mar Vermelho” de algumas traduções procede da
LXX, que tentou identificar essa extensão de água com um lugar conhecido).
Poderia ser a parte mais meridional do lago
Mensale ou os vaus do lago Sirbone (perto do
Mediterrâneo, entre o Egito e Canaã). O Migdol de Ex
14.2 caía do lado egípcio do mar, e o texto hebraico de Ez 29.10 situa Migdol
no extremo nordeste do Egito, muito longe de Assuã. Cruzando os vaus desde Migdol estava Baal-Zefon (Ex
14.2), que significa “senhor do Norte”. O “norte”, a que faz referência este
nome, não é um indício concludente, já que esta designação parece corresponder
originariamente a uma elevada montanha da costa norte da Síria, o monte Cassio
ou Amano. Um destacamento de soldados fenícios poderia ter levado consigo este
nome da sua pátria para o Egito, aplicando-o em sentido irônico às colinas
baixas situadas a oeste de Sirbone (ao nordeste do atual canal do Suez),
chamada na época Pelusium e atualmente Farama.
Outras informações bíblicas estariam
mais de acordo com a rota sul, o que
implicaria um desvio muito ao sul para alcançar o monte Sinai segundo a teoria
1 (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Exodo-3.jpg). (W.F.
Albright trata de conciliar ambas as teorias, supondo que o êxodo seguiu uma
rota norte, desviando-se logo para o sul; outros pesquisadores sustentam que
houve vários êxodos, teoria que também se aplica à solução das discrepâncias
cronológicas e arqueológicas que suscitam o êxodo e a conquista da Palestina).
Seguindo um desvio para o sul, encontramos, na parte sul-central da Península
do Sinai umas inscrições de ca. de 150 d.C. em um dialeto árabe chamado nabateu. Elas testemunham que o vale
Mukkatab e o triângulo adjacente, que se estende uns
Afirma-se que os israelitas , depois
da teofania do Sinai, caminharam sob as ordens de Moisés durante quarenta anos
em direção à Transjordânia. A rota do Sinai até Edom está assinalada duas vezes na
Bíblia: a primeira, com muitas minúcias, em Nm 33, e a segunda, mais
brevemente, em Dt
Antes de passarmos a examinar em
detalhes a geografia da Transjordânia,
convém mencionar, ainda que brevemente, o problema da continuação do êxodo para o monte Nebo, situado
no extremo nordeste do mar Morto, onde Moisés morreu e foi sepultado (Dt 34.5).
Havia três possíveis rotas para o norte partindo de Eziom-Geber, junto ao Golfo
de Ácaba, em direção às montanhas da Transjordânia, ao leste do Mar Morto
1) A rota mais ocidental ia diretamente para o
norte através da depressão do Arabá, para dobrar ao sul do mar Morto e entrar
nas terras altas, passando ao longo do limite entre Edom e Moabe.
2)
A rota central e mais cômoda era a que seguia do golfo de Ácaba para a direção
nordeste e através do wadi Yetem, desviando-se logo para o norte para alcançar
a Estrada Real (Nm 20.17), que avançava ao longo da meseta montanhosa que
formava o espinhaço de Edom e Moabe.
3)
A rota mais oriental ou caminho do deserto, ao qual se chegava também pelo wadi
Yetem, mas dobrando logo para o leste e adentrando no deserto antes de dobrar
de novo para o norte rodeando Edom e Moabe pelo leste.
A passagem pela rota
III – GEOGRAFIA DA PALESTINA
3.1 – CONFIGURAÇÃO E CARACTERÍSTICAS
A região que vamos descrever agora é uma estreita
faixa de terra que mede entre 320 e 380
km de Dã, no norte, até o limite
com península do Sinai, ao sul (de Dã a Cades-Barnéia=
Teremos que ocupar-nos também com o
Negev e a Transjordânia junto com o Israel propriamente dito. Esta área mais
ampla se presta a uma divisão em quatro faixas quase paralelas no sentido
norte-sul (http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/TS/indexEs.html).
Enumeradas do leste para o oeste, são elas: 1) As montanhas da Transjordânia;
2) A depressão do vale do rio Jordão; 3) As montanhas da Palestina ou
Cisjordânia; 4) A planície costeira do Mediterrâneo (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Relevo-Palestina.jpg ).
Originalmente
ambas as cadeias de montanhas (1 e 3) formavam uma só. Separaram-se em conseqüência
de um afundamento da crosta terrestre na direção norte-sul. Esta falha tectônica é conhecida como Rift Valley. Ela faz
parte de um sistema que afunda a crosta terrestre desde a costa sudeste da
África, passando pela região dos grandes lagos (Niassa, Tanganica e Vitória),
continua pelo Mar Vermelho e pelo golfo de Ácaba, continua em linha reta pelo
norte, atravessando a Palestina, o Líbano e a Síria até penetrar na meseta da
Anatólia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_do_Rift).
Em todo o percurso asiático, o vale formado
por essa falha geológica é cercado por cadeias de montanhas: Na Síria, o VALE DE GHAB é
ladeado pelas cordilheiras do Anshariyeh (perto da costa mediterrânea) e do
Jebel Zawiyeh (voltado para o Grande Deserto. No Líbano, o VALE DE BEQAA é
cercado pelas cordilheiras do Líbano (junto ao mar) e do Antilíbano(em direção
ao deserto). Ao pé dessas duas
cordilheiras, cujas alturas máximas são
Na
Palestina, o afundamento da faixa 2 formou a depressão do Jordão (Ghor, em
árabe), pela qual fluem agora as águas do rio Jordão, desde as montanhas do
Líbano até o mar Morto, no sul.
É
possível que algumas montanhas da Palestina tenham tido alguma vez uma atividade vulcânica. A leste da
Palestina, o Gebel
Druze apresenta algumas mostras vulcânicas em forma de lava ou basalto
espalhados sobre Basã e sobre a parte leste do deserto da Transjordânia. Em Callirhoe, junto à
margem oriental do Mar Morto, há mananciais térmicos que demonstram a
existência de certa atividade ígnea no subsolo. Há provas claras de que na
antiguidade houve vários terremotos (Am
1.1). A arqueologia demonstrou que o mosteiro de Qumrã, dos essênios, foi
destruído por um terremoto (por volta de
3.2 – CLIMA
O
clima varia segundo as características de cada região: a costa, as montanhas, a
depressão do Jordão. Fundamentalmente o ano se divide em duas estações: o
verão, quente e seco, e o inverno, frio e úmido. A costa da Palestina é quente
(de
Também as chuvas
variam na Palestina segundo a região (http://www.cpad.com.br/fotos/escola/mapas/Relevo-Palestina.jpg). Quanto
mais próximas do Mediterrâneo, mais chuvas as terras recebem, pois as montanhas
atuam como uma barreira que detém os ventos úmidos do mar e as faz descarregar
sobre as ladeiras ocidentais. As ladeiras voltadas para o oriente, portanto,
são mais secas. Berseba, no
Negev, registra uma média de
O
caráter sazonal das chuvas significa que é preciso guardar água em cisternas (Gn 37.22; Pv 5.15; Jr 38.6),
com vistas à estação seca, a menos que uma cidade seja tão afortunada que conte
com um manancial nas imediações, como a fonte Gihon em Jerusalém, para dispor
de “água viva” (daqui as imagens de Ez 47.1; Zc 13.1; Jo 4.10-14). Um acidente
característico da Palestina é o wadi, leitos
temporários de água, secos no verão, e que transportam torrentes de água
durante as chuvas de inverno. Quando estão secos, estes wadis servem de
caminhos para subir dos vales para as montanhas. São muito escassos os vales
que contam com um curso permanente de água.
Ocupemo-nos
agora com as quatro faixas de terra no sentido norte-sul. Vamos começar com a
região montanhosa da Transjordânia, descrevendo-a de sul a norte, de acordo com
a etapa final do êxodo, que proporcionou a Israel o primeiro contato com esta
região.
3.3 – AS QUATRO
FAIXAS PARALELAS NO SENTIDO NORTE-SUL
3.3.1 – A
TRANSJORDÂNIA
As
montanhas da Transjordânia são mais elevadas que as da Palestina. Estão
cortadas de leste a oeste por tremendas gargantas ou cânions, que conduzem
ribeiros permanentes de água. Enumerados do sul para o norte, são eles: o Zerede (Nm 21.12; Dt 2.13), que desemboca no extremo sul do Mar
Morto; o Arnom (Nm
21.13; Dt 3.16), que desemboca na metade do mar Morto,
As
montanhas do sul da Transjordânia, que constituem os antigos domínios de Edom,
começam a uns
A
meseta montanhosa de EDOM se leva
a mais de
A
meseta de Edom pode ser dividida em duas partes desiguais pela baixada de PUNOM,
Os
montanheses da meseta edomita, que moravam “nas tendas das rochas”(Ob 3) não
podiam manter-se só à base da agricultura e da criação de gado. Extraíam cobre
de suas montanhas e exigiam taxas das caravanas que seguiam pela estrada real
em direção ao norte, atravessando sua meseta (http://www.bibleplaces.com/punon.htm). Este contato permanente
com estrangeiros pode ter contribuído para dar-lhes a fama de sábios ( Jr
49.7).
O
território de
MOABE, em sentido estrito, perece que se estendeu entre os ribeiros Zerede e
Arnom (Dt 2.24;Nm 22.36), a leste, portanto, da metade sul do mar Morto. Porém
Moabe muitas vezes estendeu suas fronteiras para além do rio Arnom, de modo
que, como no caso de Edom, se pode falar de uma Moabe do Norte e de uma Moabe
do Sul, com o Arnom como o limite entre ambas (Jr 48.20 implica que o Arnom era
o traço geológico mais característico de Moabe) (http://www.bibleplaces.com/moab.htm). No sul, a cidade mais
importante era Quir-Heres (2 Rs 3.25; Is 16.11), a moderna Kerak,
impressionante fortaleza natural situada sobre uma colina isolada. Atualmente
ela está coroada por um castelo dos cruzados, testemunho mudo de que desde os
tempos bíblicos até a primeira guerra mundial esta foi uma das mais importantes
praças fortes de toda a Palestina. Em 2 Rs vemos como esta fortaleza moabita
fez frente às forças reunidas de Israel e Judá.
Na parte norte de Moabe, Aroer (Dt 2.36) dominava pelo lado norte a
grande garganta do Arnom, com desníveis de mais de
Uns
Como
dissemos, a ocupação dos territórios situados ao norte do rio Arnom pelos
moabitas nem sempre foi reconhecida por outras populações. Assim, por exemplo,
quando Moisés conduziu a Israel através da Transjordânia, os amorreus haviam
ocupado Hesbom e os territórios mais ao sul, até o rio Arnom, incendiando
Madeba e saqueando Dibom (Nm 21.26-30). Em seguida, parte dos territórios moabitas
do norte foram ocupados pela tribo de Rúben (Nm 32.37; Js 13.9), mas
esta tribo foi rapidamente destruída por uma agressiva expansão de Moabe, que
chegou inclusive a Jericó, atravessando o Jordão (Jz 3.12ss;Gn 493-4). Há que notar-se
que as planícies de Moabe, onde os israelitas acamparam antes de cruzar para
Jericó, não estava situada na meseta moabita, e sim, no vale do Jordão, no nordeste do mar Morto.
O
território da meseta moabita é muito diferente dos difíceis promontórios
meridionais de Edom. Mesmo que certos cultivos, como o trigo ou a cevada, só
sejam possíveis em uma zona muito reduzida, principalmente na parte norte do
território, a meseta oferece boas pastagens. Inclusive em nossos dias, as
negras tendas dos beduínos marcam o país, assinalando os lugares em que
apascentam seus rebanhos. Economicamente são descendentes de Nessa, rei de
Moabe, que “era pastor de ovelhas e tinha que entregar todos os anos ao rei de
Israel cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros” (2 Rs 3.4). Quando Rúben ocupou o território moabita, teve tanto
trabalho com o gado, que não pode prestar ajuda a seus parentes das outras
tribos em tempos de guerra (Jz 5.16). A riqueza de Moabe talvez explique o
orgulho de que Jr 49.26 e Is 25.10-11 acusam a seus habitantes. Gn 19.37 faz os
moabitas descender da união incestuosa de Ló com sua filha primogênita. Rute,
bisavó de Davi e da linhagem de Jesus, era moabita (Rt 4.5,17; Mt 1.5).
Ao
norte de Madeba e Hesbom se estende a longa faixa de terra de Gileade, paralela
a grande parte da depressão do rio Jordão, entre o mar Morto e o lago da
Galiléia. Antes de estudarmos esta região, demos uma olhada em AMOM,
território situado a leste de Gileade e a nordeste de Moabe do norte. Ali os
amonitas se estabeleceram numa zona mal definida de terra que ia desde o rio
Jaboque, no norte, até, em ocasiões, o Arnom, no sul, quando Moisés introduzia
os israelitas na Transjordânia (Jz 11.13). Amom parece o mais débil dos reinos
que temos estudado. Para se ter uma idéia da situação flutuante da fronteira,
basta notar que, ao atacar o reino amorreu de Hesbom (que depois passaria a ser
território de Rúbem), Israel não pensava atacar nem a Moabe nem a Amom, se bem
que ambos os povos reivindicassem aquele território. Note-se que Js 13.25
caracteriza o território de Gade, sul de Gileade, como país amonita.
Se
as fronteiras de Amom estavam confusas, sua capital era indiscutivelmente Rabat-Amom (em
tempos do helenismo, Filadélfia da Decápolis, atualmente Amã, capital da Jordânia). (http://www.bibleplaces.com/amman.htm). A formidável cidadela
montanhosa desta localidade ofereceu enérgica resistência ao exército de Davi
(2 Sm 11.14-21; cf. Am1.14). Em tempos posteriores, ca. de
O país de Amom, encerrado entre as montanhas do sul de
Gileade e o grande deserto, era um planalto. Seu território mais fértil era o vale do rio Jaboque superior, rio que nasce perto de
Rabat-Amom e avança para o norte antes de dobrar para o oeste em direção ao
vale do Jordão (http://www.bibleplaces.com/jabbok.htm).
Os amonitas, que haviam se apossado por força desta região, se viam obrigados a
defendê-la constantemente de saqueadores procedentes do deserto (o mal que
ameaça os amonitas em Ez 25.4-5). Se bem que nunca foram muito fortes, os
amonitas puderam organizar às vezes rápidos ataques contra tribos israelitas
(Jz 10.9; 1 Sm 11.1; Am 1.13; 2 Rs 24.2; Jr 40.14). Quando tinham que enfrentar
um Israel unido, precisavam de ajuda alheia (2 Sm 10.6). Amom estava submetida
a Israel durante longos períodos (2Sm 12.31; 2 Cr 27.5). Segundo 1 Rs 11.7, sua
religião exigia sacrifícios humanos ao deus Moloque.
Quanto
à GILEADE, o rio
Jaboque, em sua descida desde as montanhas da Transjordânia para o vale do
Jordão, divide este território em duas partes. A parte do sul, conquistada do
rei amorreu de Hesbom (Dt 2.36; Js 12.2) foi concedida à tribo de Gade. A parte
norte, tomada do rei de Basã (Dt 3.10;Js 12.5) foi concedida a uma parte da
tribo de Manassés( cf. Dt 3.12-13; Js 13.25,31, se bem que o limite entre as
tribos, assim como aparece na Bíblia, apresenta muitas vezes uma evolução
histórica mais complicada do que supõem os relatos).
Gileade
tem uma configuração oval, de uns 55-
O
país era exposto a contínuos ataques dos amonitas pelo sul e dos arameos pelo
norte. Da campanha de Gideão, temos notícias de cidades importantes de Gileade,
como Sucote e Penuel, ambas situadas nas imediações do Jaboque. Sucote poderia
ser Tell Deir-Alla, um enorme montículo
situado na conjunção dos vales do Jaboque e do Jordão. Escavações recentes
sugerem que houve uma conquista israelita por volta de 1200 e uma ocupação
filistéia posterior. Até agora não se tem provas de que os filisteus chegaram a
controlar tão grande extensão no vale do Jordão. Penuel, muitos quilômetros a leste do vale do
Jaboque, é o lugar da luta sustentada por Jacó com um anjo (Gn 32.30-31). Ao
que parece, serviu de capital ao reino norte nos tempos de Jeroboão I (ca.915;
1 Rs 12.25). Maanaim, outro
importante centro de Gileade (Gn 32.2), ao sul do Jaboque, foi a “capital do
exílio” de Is-Bosete, filho de Saul (2 Sm 2.8). Uma das razões para se
estabelecer estas capitais provisórias em Gileade era que a configuração do
terreno dava vantagens ao movimento de pequenas tropas em relação a exércitos
maiores, de tal modo que este país converteu-se num lugar de refúgio, por
exemplo, para Davi, quando fugia de Absalaão (2 Sm 17.24) (http://www.bibleplaces.com/gileadlower.htm).
Jabes-Gileade, importante cidade situada ao norte do território,
mantinha, ao que parece, estreitas relações com Benjamim, instalado na outra
margem do Jordão (Jz 21.5-12; 1 Sm 11) (http://www.bibleplaces.com/gileadlower.htm). Ramote-Gileade, a
leste, cidade levítica de refúgio (Dt 4.43), desempenhou importante papel nas
guerras do século IX entre Israel e os arameus da Síria (1 Rs 22; 2 Rs 8.28).
Nos tempos do NT, Gerasa (Mc 5.1-20) (http://www.bibleplaces.com/gerasa.htm)(http://198.62.75.4/www1/ofm/sbf/escurs/Giord/01GiordEs.html#Jerash), uns
Poucos
quilômetros ao sul do Jarmuque, as montanhas de Gileade descem suavemente e
formam uma meseta muito fértil. São os campos de BASÃ, conhecidos
atualmente como as colinas de Golam (http://www.bibleplaces.com/golanheights.htm). Eles iniciam às margens do rio Jarmuque, seguem paralelos
ao lago de Genezaré, alcançam o pé do
monte Hermom no norte, e a leste vão até as negras montanhas vulcânicas do
Gebel Druze.Aqui as chuvas são suficientes, pois as colinas baixas da Galiléia
não chegam a impedir a passagem das
nuvens procedentes do Mediterrâneo, que podem regar os campos de Basã. Em muitas partes desta região, o solo é formado
por ricos depósitos vulcânicos. Ao juntar-se a água das chuvas e a fertilidade
do solo, Basã se converte em região produtora de grãos, que abastece de trigo a
esta região, além de possuir boas pastagens para o gado. A gordura dos animais
de Basã tornou-se proverbial na Bíblia (Sl 22.12; Am 4.1; Ez 39.18). Para o
leste, nas ladeiras do Gebel Druze, cresciam robustos carvalhos, de modo que
Basã era comparada com o Líbano pelo esplendor de suas árvores (Is 2.13; Na
1.4; Ez 27.6;Zc11.1-2). Os bosques de Basã serviam muitas vezes de refúgio a
quem se encontrava em apuros (Sl 68.15,22; Jr 22.20).
São
escassas as referências bíblicas a lugares concretos de Basã, pois Israel só
controlou este território em momentos de maior esplendor. Uma das cidades de Ogue,
rei de Basã, era Salcá (Dt 3.10, a moderna Salkhad), no Gebel Druze, e Edrei ( a
moderna Der’a), situada mais a oeste, onde teve lugar a vitória de Moisés sobre
Ogue (Nm 21.33-35). Nos tempos de Davi, o reino arameu de Gesur se
estendeu até ocupar a porção de Basã, perto do lago da Galiléia. Este reino foi
submetido por Davi, e dali procedia a princesa que foi mãe de Absalão ( 2 Sm
3.3;13.37-38). No século IX, Basã foi cenário de lutas entre Israel e os sírios
de Damasco (2 Rs 10.32-33). Nos tempos dos macabeus, houve lutas neste
território, quando Judas acudiu os judeus estabelecidos em Bosor, Bosra e Carnain ( 1 Mac 5.24-52).
Na época do NT, várias cidades que integravam a DECÁPOLIS (